domingo, 14 de junho de 2009

O Filme "O Homem da Capa Preta"

Seguem alguns trechos do livro Dialética do Esclarecimento, de Theodor Adorno e Max Horkheimer, capítulo Indústria Cultural: o esclarecimento como mitificação das massas:

O filme começa em Alagoas, com o nascimento de Natalício Tenório Cavalcanti de Albuquerque em 1909. Uma poesia de cordel fica ao fundo, enquanto a mãe de Natalício fecha o corpo de seu filho com dizeres que remetem à cultura e à tradição do sertão nordestino.
Natalício, já crescido, presencia a morte de seu pai, Antônio Tenório. O mesmo assassino de seu pai volta anos depois para matá-lo, mas Natalício se aproveita enquanto a arma do jagunço falha e mata o algoz de seu pai à inchadadas.
O enredo salta para a metade da década de 1940, quando Getúlio abre eleições diretas, e mostra Tenório Cavalcanti como um deputado estadual eleito em Duque de caxias, no Rio de Janeiro. Em seu discurso de posse enfatiza: “o povo agora tem um advogado e um defensor”, empunhando a constituição na mão esquerda e sua metralhadora Lurdinha na mão direita, usando uma capa preta que demonstra ao povo que eles agora têm um denfensor.
Tenório se mostra como um típico político populista, que com uma mão acaricia o povo e com a outra manipula. Escutando os problemas do povo, pouco resolve, geralmente transferindo para outros, inclusive para Deus. Andando entre o povo de Duque de Caxias e perguntado por pessoas que bebiam na rua para que time torcia Tenório, este respondeu: “sou Flamengo de coração, Fluminense por convicção, mas eu torço mesmo é para o Bota-Fogo”.
Alcançando uma popularidade cada vez maior, Tenório Cavalcanti também passa a acumular cada vez mais inimigos, principalmente entre os políticos do PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), representado no filme pelo deputado Afonso Arinos, inimigo pessoal de Natalício, que chega à câmara Federal pela UDN (União Democrática Nacional).
E o PTB consegue eleger o prefeito, o governador e o presidente, podendo assim agir contra Tenório em Duque de Caxias. É o que acontece. O delegado Lima Maragato vai para a cidade e passa a perseguir sem clemência os aliados de Tenório. Em um evento em que o delegado manda que Tenório tire o chapéu na sua presença e o deputado não acata, Maragato derruba o chapéu de Natalício, que se abaixa para peg-alo e é fotografado de joelhos diante do delegado, abalando sua carreira política.
A partir de então Tenório não usa mais a capa preta e a cidade entra em estado de guerra civil, com morte de vários lados, inclusive a do delegado Maragato.
Sem uma preocupação em mostrar os anos se passando, o filme passeis pelos governos de Getúlio Vargas, de 1951 a 1954; de Juscelino e de Jânio Quadros quase que imperceptivelmente, não fosse pelas expresões dos atores que eram envelhecidos. A instabilidade política do país é contada pelo discurso de Tenório, que sai da UDN para tentar o governo da Guanabara contra Carlos Lacerda e perde. Após a derrota fica sozinho e sem o apoio de seus antigos e fiéis aliados, um camponês e um jornalista, que discordavam da atuação inflexível de Natalício.
Derrotado nas urnas e sem apoio, o homem da capa preta revê suas atuações políticas e resolve mudar, refazendo as alianças perdidas porém com um novo discurso, que agora se aproximava de João Goulart, portanto visto como de esquerda para a época. O jornal Luta Democrática é a voz destas novas idéias, consumido pelas classes mais populares do Estado.
Mas o golpe militar representa também um duro golpe para o renascimento político de Tenório. Seus aliados foram perseguidos e em breve chegaria a vez dele. O jornalista fugiu pela embaixada da Suíça enquanto o operário resolveu ficar e resistir, provavelmente em guerrilhas.
Tenório também ficou. Estava novamente com a Lurdinha em uma mão e a capa preta sobre o corpo ajudando ao povo contra as injustiças dos poderosos. “não sou facista nem comunista. Sou Tenório Cavalcanti. Sou macho”. O político populista estava acima das ideologias.
Na visão do diretor Sérgio Rezende, Tenório é o herói. Um populista saído do povo e que busca governar para o povo. A constituição em uma mão e a metralhadora em outra estão de acordo com a própria representação da deusa grega da justiça que, de olhos vendados, traz em uma mão uma balança e na outra uma espada.
Natalício não entra em crises pessoais, que ficam representadas no papel de sua esposa, que tem breves surtos de loucuras.
Para Sérgio Rezende, o populismo é odiado pelos poderosos e aliado do povo. Tenório acaba do lado de Jango e seus inimigos são conchavados com o exército que tomou o poder. Desta maneira, o golpe militar é também um golpe no governo popular, democrático. Quando a cada de Natalício é cercada pelo exército, entenda-se como a casa de um representante do povo sendo invadida sem mandato, sem leis.
Na última sequência do filme, os militares entram novamente na casa de Tenório em busca de pessoas perseguidas pelo regime que supostamente estariam escondidas ali, no lar do político. Os soldados são liderados pelo arquirival Afonso Arinos, que se dirige a Natalício de diz que vai destruir seu nome e sobre ele jogar sal e pedras, ou seja, a punição dada a Tiradentes, um herói da liberdade. Essa é a visão que tenta passar Sérgio Rezende nesta sua leitura sobre o populismo, aproximando-a dos dias atuais, já que o filme é de 1986 e dialoga menos com o início do regime que com o seu final.
Todo o filme trabalha cores. No início do filme em que Tenório está sempre de preto, seus inimigos estão sempre de branco. Após deixar de usar a capa preta, Tenório é que passa a usar o branco e seus inimigos usam o preto. As câmeras geralmente utilizam-se de planos médios e closes quando Tenório fala, aproximando em planos-detalhes de sua boca ou expressões do rosto quando este discursa raivosamente. Quando seus opositores estão reunidos, raramente suas caras são mostradas, com planos nas mãos, nas roupas ou mesmo colocando objetos na frente do rosto, destacando a figura de Afonso Arinos.
O filme ganhou os prêmio de melhor filme, melhor atriz (Marieta Severo), melhor ator (José Wilker) e melhor música(D. Tygell) no festival de gramado de 1986.

Temas e conteúdos históricos abordados:

O principal conteúdo histórico que percorre todo o filme são os 19 anos que durou o populismo. Segundo a leitura que o diretor Sérgio Rezende fez, os populistas são apresentados pela figura de Natalício Tenório Cavalcanti de Albuquerque e estão ao lado do povo. No caso de Tenório, emergiram do próprio povo. Tanto que nos momentos em que o deputado Tenório se afasta do povo, sofre grandes derrotas e fica isolado politicamente. Populistas históricos tradicionais como Getúlio Vargas e mais superficialmente Jânio Quadros, são vistos sutilmente como inimigos.
O período temporal do filme percorre os 19 anos de populismo começados historiograficamente em 1945, com o fim do Estado Novo de Getúlio Vargas e a eleição de Eurico Gaspar Dutra, até a Revolução Gloriosa de 1964, conhecida menos gloriosamente como golpe militar, cujo primeiro presidente foi Humberto de Alencar Castelo Branco.
Passam-se por estes diferentes anos, diferentes presidentes. Dutra (1945-1951), Getúlio Vargas novamente (1951-1954), o presidente João Fernandes Café Filho (1954-1955) que sucedeu Vargas após o suicídio, Juscelino Kubitschek (1956-1961), Jânio Quadros (de favereiro a setembro de 1961), João Goulart (1961-1964) e Castelo Branco (!964-1967). O filme consegue passar a instabilidade do populismo que em menos de 20 anos teve seis presidentes dos quais apenas dois cumpriram todo o mandato, que foram Dutra e JK.
Os idealizadores do filme não deixaram de considerar o fato de estarem produzindo a película em 1986, logo após o fim do regime. Assim, dialogam diretamente com os anseios de um público que quer vilanizar os militares e exaltar os últimos democratas antes do golpe. Em função disto Tenório era um democrata populista que se aliou a João Goulart. Ambos foram perseguidos assim que os militares tomaram o poder. Eles foram os últimos democratas e estavam ao lado das massas. Os inimigos de Tenório, por outro lado, acabaram todos ao lado da ditadura, perseguindo o povo.
Tenório é como o povo: fala o que pensa. Seus inimigos atuam sempre escondidos, confabulando em reuniões em que suas caras não aparecem. Assim é Afonso Arinos, com atitudes indiretas de nomear cargos para perseguir seus opositores. Essa é a linha que Rezende se utiliza para contar os fatos do populismo como pré-cessor do regime militar em diálogo com o momento de pós-ditadura.

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