Aqui, seguindo a Série Parasita, procuro simplesmente colocar virtualmente alguns livros que por algum motivo eu resolvi parar para fazer uma resenha. Felipe Araújo é Historiador, Jornalista, Professor e Pesquisador. Currículo Completo em http://lattes.cnpq.br/3094615116820154
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
Questões sobre o livro 1984 de George Orwell
O tempo.
O tempo relatado efetivamente por Orwell não é o futuro nem o presente, mas sim o passado. É a relação do ser humano representado por Winston, com o próprio passado que dá conteúdo ao romance. Um protagonista sem passado em um drama contextualizado em um tempo e um espaço. É esse o desespero de Winston conhecer o seu passado. Mas, como afirma um dos slogans do Partido: quem controla o passado controla o futuro. Quem controla o presente controla o passado.
História.
Contextualizando o autor, o livro relata os regimes totalitários dos grandes ditadores da época de Orwell: Hitler, Mussolini e Stalin. Qualquer um deles se enquadraria no perfil do Grande Irmão ou ainda uma mistura de todos eles, pegando de cada um o que melhor os garantiu enquanto ditadores, afinal, nunca se viu o Big Brother e, sendo um computador, pode juntar a maior qualidade de cada um destes figurões históricos. Uma característica, talvez um pouco extremista, é de que no livro, assim como nos regimes totalitários, o poder cultiva a revolta em algumas pessoas para mostrar quem, afinal, exerce o poder. Winston foi, seguramente, instigado a se rebelar e viver um drama de final trágico. Dentro do livro a história e o passado são de domínio do Partido, que molda o passado para se acomodar no presente e manter, invariavelmente, as forças de poder no poder.
Baralha a ordem do tempo permitindo mudança do passado:
- O passado existe concretamente, no espaço? Existe em alguma parte um mundo de objetos sólidos, onde o passado ainda acontece?
-Não.
-Então, onde é que existe o passado, se é que ele existe?
-Nos registros. Está escrito.
-Nos registros. E em que mais?
-Na memória. Na memória dos homens.
-Na memória. Muito bem. Nós, o Partido, controlamos todos os registris, e controlamos todas as memórias. Nesse caso, controlamos o passado, não é verdade?
-Mas como podes impedir que a gente se lembre das coisas?!! É involuntário. Está fora do indivíduo. Como podes controlar a memória? Não controlaste a minha.
E assim Orwell demonstra como se é possível controlar a história, controlar o passado, mudar o passado e “baralhar” a ordem do tempo. Todo o tipo de registro que não interessava ao poder era por vezes eliminado, por outras moldado (ou mudado). Frequentemente mudavam várias vezes de acordo com a conveniência. Mas será que o monopólio da história é privilégio do futuro? Um absurdo deste acontece no nosso presente? É necessário tecnologia para controlar a história? Um contemporâneo de Orwell se questionou quanto a isto exatamente uma década antes. O dramaturgo Bertold Brecht escreveu de forma maestral um poema chamado Perguntas de Um trabalhador que lê no qual busca a compreensão do domínio da história por quem detém o poder. Vamos ler a obra abaixo.
PERGUNTAS DE UM TRABALHADOR QUE LÊ
Bertold Brecht
Quem construiu a Tebas de sete portas?
Nos livros estão nomes de reis.
Arrastaram eles os blocos de pedra?
E a Babilônia várias vezes destruída
Quem a reconstruiu tantas vezes? Em que casas
Da Lima dourada moravam os construtores?
Para onde foram os pedreiros, na noite em que
a Muralha da China ficou pronta?
A grande Roma está cheia de arcos do triunfo
Quem os ergueu? Sobre quem
triunfaram os Césares? A decantada Bizâncio
tinha somente palácios para os seus habitantes? Mesmo
na lendária Atlântida
os que se afogavam gritaram por seus escravos
na noite em que o mar a tragou.
O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Sozinho?
César bateu os gauleses.
Não levava sequer um cozinheiro?
Filipe da Espanha chorou, quando sua armada
naufragou. Ninguém mais chorou?
Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos.
Quem venceu além dele?
Cada página uma vitória.
Quem cozinhava o banquete?
A cada dez anos um grande Homem.
Quem pagava a conta?
Tantas histórias.
Tantas questões.
sábado, 29 de outubro de 2011
Weber, Marcuse e o Agir Racional
Max Weber introduziu o conceito de “racionalidade” a fim de determinar a forma da atividade econômica capitalista, das relações de direito privado burguesa e da dominação burocrática. Racionalização quer dizer, antes de mais nada, ampliação dos setores sociais submetidos a padrões de decisão racional. A isso corresponde a industrialização do trabalho social, com a conseqüência de que os padrões de ação instrumental penetram também em outros domínios da vida (urbanização dos modos de viver, tecnicização dos transportes e da comunicação). Trata-se, em ambos os casos, da propagação do tipo de agir-racional-com-respeito-a-fins: aqui ele se relaciona à organização dos meios, lá à escolha entre alternativas. A planificação pode finalmente ser concebida como um agir racional-com-respeito-a-fins, de segundo grau: ela se dirige para a instalação, para o aperfeiçoamento ou para a ampliação do próprio sistema do agir racional-com-respeito-a-fins. A “racionalização” progressiva da sociedade está ligada à institucionalização do progresso científico e técnico. Na medida em que a técnica e a ciência penetram os setores institucionais da sociedade, transformando por esse meio as próprias instituições, as antigas legitimações se desmontam. Secularização e “desenfeitiçamento” das imagens do mundo que orientam o agir, e de toda a tradição cultural, são a contrapartida de uma “racionalidade” crescente do agir sócia.
Herbert Marcuse partiu dessa análise para mostrar que o conceito formal de racionalidade –que M. Weber tirou do agir racional-com-respeito-a-fins do empresário capitalista e do trabalhador industrial assalariado (...) [etc.] –tem implicações materiais determinadas. Marcuse está convencido de que, no processo que Weber chamou de “racionalização”, dissemina-se não a racionalidade como tal, mas, em seu nome, uma determinada forma inconfessada de dominação política. Visto que se estendo à escolha correta entre estratégias, ao emprego adequado de tecnologias e à organização de sistemas de acordo com fins (...) essa espécie de racionalidade subtrai à reflexão a contextura de interesses globais da sociedade –ao serem escolhidas as estratégias, empregadas as tecnologias e organizados os sistemas –, furtando-a a uma reconstrução racional (...) O agir racional-com-respeito-a-fins é, segundo sua estrutura, o exercício do controle. “Talvez o próprio conceito de razão técnica seja uma ideologia. Não apenas na sua aplicação, mas já a própria técnica é dominação (sobre a natureza ou sobre o homem), dominação metódica, científica, calculada. Não apenas de maneira acessória, a partir do exterior, que são impostos à técnica fins e interesses determinados –eles já intevêm na própria construção do aparato técnico; e técnica é sempre um projeto histórico-social; nela é projetado aquilo que a sociedade e os interesses que a dominam tencionam fazer com o homem e com as coisas. Tal objetivo da dominação é “material” e, nessa medida, pertence à própria forma da razão técnica.
Herbert Marcuse partiu dessa análise para mostrar que o conceito formal de racionalidade –que M. Weber tirou do agir racional-com-respeito-a-fins do empresário capitalista e do trabalhador industrial assalariado (...) [etc.] –tem implicações materiais determinadas. Marcuse está convencido de que, no processo que Weber chamou de “racionalização”, dissemina-se não a racionalidade como tal, mas, em seu nome, uma determinada forma inconfessada de dominação política. Visto que se estendo à escolha correta entre estratégias, ao emprego adequado de tecnologias e à organização de sistemas de acordo com fins (...) essa espécie de racionalidade subtrai à reflexão a contextura de interesses globais da sociedade –ao serem escolhidas as estratégias, empregadas as tecnologias e organizados os sistemas –, furtando-a a uma reconstrução racional (...) O agir racional-com-respeito-a-fins é, segundo sua estrutura, o exercício do controle. “Talvez o próprio conceito de razão técnica seja uma ideologia. Não apenas na sua aplicação, mas já a própria técnica é dominação (sobre a natureza ou sobre o homem), dominação metódica, científica, calculada. Não apenas de maneira acessória, a partir do exterior, que são impostos à técnica fins e interesses determinados –eles já intevêm na própria construção do aparato técnico; e técnica é sempre um projeto histórico-social; nela é projetado aquilo que a sociedade e os interesses que a dominam tencionam fazer com o homem e com as coisas. Tal objetivo da dominação é “material” e, nessa medida, pertence à própria forma da razão técnica.
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
ARTE E MÍDIA: a análise de um texto
1- Identificando os procedimentos do autor em cada parágrafo
P1: No primeiro parágrafo do livro, a introdução, o professor Arlindo Machado busca contextualizar o leitor no que diz respeito ao conceito de ARTEMÍDIA, explicando já de maneira fácil e direta do que se trata o livro como um todo sem deixar de ser amplo e profundo.
P2: Em seguida, Machado vai ampliar o conceito para além de quesitos técnicos, passando a debruçar-se na divisão da expressão, ou seja, a “arte” e a “mídia” para melhor analisa-lo ao longo de toda a obra, deixando o gancho para o que será o capítulo seguinte. Aqui já se encerra a introdução.
P3: No que seria um segundo capítulo titulado “Arte e Mídia: aproximações e distinções”, Arlindo Machado passará por sobre a teoria de Walter Benjamin e o seu artigo principal, “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”. Como é de costume de Machado, as idéias são colocadas em sua obra sem que as referências sejam devidamente citadas. Em todo caso, ficará claro que, como diz o professor, “A arte sempre foi produzida com os meios de seu tempo” - o que nos remete ao frankfurtiano Benjamin, para assim a obra chegar ao conceito de arte e mídia na sociedade contemporânea.
P4: Neste parágrafo, Arlindo Machado dissertará belamente sobre como a arte se apropria de aparatos tecnológicos que não são produzidos, em sua origem, pensados para um uso artístico. Porém, o artista não se limita a ver uma “máquina” apenas para o uso que lhe foi conferida e a subverte para produções artístico-culturais de toda a sorte. O capítulo é encerrado com a trajetória que desemboca no nascimento da poderosa indústria fonográfica.
P5: Dentro da mesma idéia de indústria fonográfica e sua reprodução em série para o acumulo de capitais no sistema vigente –ou seja, o capitalista –Machado vai contextualizar o cinema, a fotografia, o vídeo e o computador no mesmo eixo, concentrando-se nas peculiaridades desta última máquina –o computador- e o impacto da digitalização nas produções artísticas.
P6: Neste momento, o professor Arlindo expõe as qualidades da imagem digitalizada dentro da lógica da reprodutibilidade técnica.
P7: Agora, de maneira complexa, as limitações da imagem cinematográfica digitalizada são expostas, permitindo perceber os pontos mais fracos desta “compactação da imagem” em sua forma digital, não permitindo nuances que a pintura, por exemplo, permite.
P8: Em uma área de conhecimento em que Arlindo Machado domina como poucos no Brasil, ele passa a falar de obras artemidiáticas produzidas nos primórdios desta produção artística, lembrando que a arte é um grande desvio em termos perspectivos do uso que originalmente se atribuiu a determinadas maquinarias, lembrando obras de Nam June Paik, Frederic Fontenoy e outros.
P9: A partir daqui, Machado –novamente sem fazer citações bibliográficas diretas –vai começar a introduzir as teorias de Vilen Flusser e a idéia de artista em contraposição ao funcionário diante de uma máquina.
P10: Machado trabalha um exemplo que remete à teoria de Vilen Flusser.
2. Avaliar o texto:
A - parágrafo inicial: o parágrafo inicial, parte componente da introdução, está bem contextualizado, trazendo a origem norte-americana do termo artemídia e explicando por uma perspectiva ao mesmo tempo universal e local. O tema é relevante por termos poucos trabalhos de artemídia realmente conceituados no Brasil, o que justifica a obra do autor que, embora curta e de rápida leitura, é esclarecedora. Acredito que artistas como um todo devem ler a obra, em especial o que lidam com vídeo e produção de imagens.
B- O tema está bem definido e proposta de forma objetiva e comunicativa, característica das obras de Arlindo Machado. Podemos dizer que dentro da temática abordada, Machado é a maior autoridade entre acadêmicos no país, pois este livro é obra que dá continuidade a outras publicações suas, como “Máquina e Imaginário”, publicada já em 1993. Embora isto esteja posto, ficaria como crítica ao autor o fato de ele pouco fazer referências bibliográficas nesta obra e, diga-se, no conjunto de suas obras como um todo. Ainda que não ocorra a citação, percebe-se a pesquisa realizada na área e a citação implícita de autores que Machado faz, demonstrado ser pessoa de grande erudição.
C- A idéia é desenvolvida com maestria. Para uma obra tão pequena, o tema está por demais encorpado. Vale lembrar que Arlindo Machado é o maior curador de exposições de artemídia no país, tendo em seu currículo curadorias desde a década de 1980, entre elas “Arte e Tecnologia” (MAC-SP, 1985), “Cinevídeo” (MIS-SP, 1992-3) entre outras que ocorreram recentemente, como Emoção Art.Ficial II. Envolvido com pesquisa e com a arte em si, podemos dizer que suas idéias são desenvolvidas com real conhecimento de causa, embora a sua metodologia –perfeita em seu desenvolvimento- peque, como já foi dito acima, pela falta de citações diretas dos autores a quem toma emprestado as suas idéias. Os exemplos citados são quase pedagógicos, facilitando o entendimento do tema e da teoria que norteia certa caminho a ser traçado e os argumentos são consistentes e dignos de alguém que é visto por muitos como a autoridade maior no assunto.
D- O referencial teórico é adequado. Falta a citação direta de várias idéias, o que pode levar um leitor meramente curioso a pensar que a idéia de “era de sua reprodutibilidade técnica” tenha sido criada recentemente e não, como sabemos, no final da década de 1930. Todavia, ao final do livro não faltam jamais os livros de Benjamin. Quanto à idéia emprestada de Flusser, Machado foi mais generoso e dedicou um pequeno capítulo a falar deste pensador, já que podemos afirmar que o professor Arlindo é quase um discípulo do filósofo checo, pois foi parte do círculo flusseriano quando este esteve no Brasil fugido da Europa Oriental. Podemos dizer, portanto, que em função de sua metodologia de escrita e apresentação de idéias, Machado quase não faça citações, deixando o seu texto fluente e quase que apenas com “idéias próprias”. Todavia, quando faz citações ou paráfrases, o faz com conhecimento e, podemos dizer, em casos em que é extremamente necessário.
E- Ainda que estejamos falando de uma obra rápida (a publicação nem chega a ter 100 páginas e é em formato de livro de bolso) não faltam fontes primárias e secundárias. Há uma bibliografia semi-comentada ao final da obra, no qual constam as fontes e as referências bibliográficas, demonstrando se tratar de uma mera escolha por tornar o texto fluente, esta maneira de citar as idéias de outrem (uma escolha questionável, mas consciente).
F- Os parágrafos estão bem conectados, não faltando ao final de um que termina, conexão com o que começa, o mesmo ocorrendo com os capítulos. Tudo apresentado de maneira fluente, objetiva, ampla, profunda e bem estruturada.
G- A obra apresenta alguns gráficos extremamente simples para explicar conceitos básicos de semiótica. Quanto a notas e citações, estas estão presentes ao final da leitura, de maneira conectada com palavras do autor como “as idéias de tal página foram tiradas de tal autor em livro x”. Embora seja preferível, a meu ver, notas nas páginas em que foram feitas as citações, isto deixa claro duas coisas: em primeiro lugar que se trata de uma obra realizada para a fluência e a leitura fácil (dada, inclusiva, o apelo mercadológico do tema). Em segundo lugar demonstra a primazia pela fluência em vez de um certo academicismo.
A pequena obra apresenta algumas críticas já visíveis em outras publicações do autor, porém nada que venhamos a dizer que nas idéias de Arlindo Machado, o que é apresentado não há relevância. Pelo contrário, na linha de Canclini, também citado no livro Arte e Mídia, apresenta formas e formatações enquanto propostas que só podem ser dadas dentro de uma idéia de apropriação e transformação de arte e das tecnologias que poucos poderiam formular com tanta objetividade e clareza quanto Machado. Para o acadêmico, deve ser lido junto a outras obras do professor Arlindo, porém, para um curioso, será uma obra de valor quase transcendental, principalmente se este curioso for um artista sem pretensões outras que não seja o conhecimento pelo simples conhecer.
MACHADO, Arlindo, Arte e Mídia, Rio de Janeiro: Zahar, 2007.
P1: No primeiro parágrafo do livro, a introdução, o professor Arlindo Machado busca contextualizar o leitor no que diz respeito ao conceito de ARTEMÍDIA, explicando já de maneira fácil e direta do que se trata o livro como um todo sem deixar de ser amplo e profundo.
P2: Em seguida, Machado vai ampliar o conceito para além de quesitos técnicos, passando a debruçar-se na divisão da expressão, ou seja, a “arte” e a “mídia” para melhor analisa-lo ao longo de toda a obra, deixando o gancho para o que será o capítulo seguinte. Aqui já se encerra a introdução.
P3: No que seria um segundo capítulo titulado “Arte e Mídia: aproximações e distinções”, Arlindo Machado passará por sobre a teoria de Walter Benjamin e o seu artigo principal, “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”. Como é de costume de Machado, as idéias são colocadas em sua obra sem que as referências sejam devidamente citadas. Em todo caso, ficará claro que, como diz o professor, “A arte sempre foi produzida com os meios de seu tempo” - o que nos remete ao frankfurtiano Benjamin, para assim a obra chegar ao conceito de arte e mídia na sociedade contemporânea.
P4: Neste parágrafo, Arlindo Machado dissertará belamente sobre como a arte se apropria de aparatos tecnológicos que não são produzidos, em sua origem, pensados para um uso artístico. Porém, o artista não se limita a ver uma “máquina” apenas para o uso que lhe foi conferida e a subverte para produções artístico-culturais de toda a sorte. O capítulo é encerrado com a trajetória que desemboca no nascimento da poderosa indústria fonográfica.
P5: Dentro da mesma idéia de indústria fonográfica e sua reprodução em série para o acumulo de capitais no sistema vigente –ou seja, o capitalista –Machado vai contextualizar o cinema, a fotografia, o vídeo e o computador no mesmo eixo, concentrando-se nas peculiaridades desta última máquina –o computador- e o impacto da digitalização nas produções artísticas.
P6: Neste momento, o professor Arlindo expõe as qualidades da imagem digitalizada dentro da lógica da reprodutibilidade técnica.
P7: Agora, de maneira complexa, as limitações da imagem cinematográfica digitalizada são expostas, permitindo perceber os pontos mais fracos desta “compactação da imagem” em sua forma digital, não permitindo nuances que a pintura, por exemplo, permite.
P8: Em uma área de conhecimento em que Arlindo Machado domina como poucos no Brasil, ele passa a falar de obras artemidiáticas produzidas nos primórdios desta produção artística, lembrando que a arte é um grande desvio em termos perspectivos do uso que originalmente se atribuiu a determinadas maquinarias, lembrando obras de Nam June Paik, Frederic Fontenoy e outros.
P9: A partir daqui, Machado –novamente sem fazer citações bibliográficas diretas –vai começar a introduzir as teorias de Vilen Flusser e a idéia de artista em contraposição ao funcionário diante de uma máquina.
P10: Machado trabalha um exemplo que remete à teoria de Vilen Flusser.
2. Avaliar o texto:
A - parágrafo inicial: o parágrafo inicial, parte componente da introdução, está bem contextualizado, trazendo a origem norte-americana do termo artemídia e explicando por uma perspectiva ao mesmo tempo universal e local. O tema é relevante por termos poucos trabalhos de artemídia realmente conceituados no Brasil, o que justifica a obra do autor que, embora curta e de rápida leitura, é esclarecedora. Acredito que artistas como um todo devem ler a obra, em especial o que lidam com vídeo e produção de imagens.
B- O tema está bem definido e proposta de forma objetiva e comunicativa, característica das obras de Arlindo Machado. Podemos dizer que dentro da temática abordada, Machado é a maior autoridade entre acadêmicos no país, pois este livro é obra que dá continuidade a outras publicações suas, como “Máquina e Imaginário”, publicada já em 1993. Embora isto esteja posto, ficaria como crítica ao autor o fato de ele pouco fazer referências bibliográficas nesta obra e, diga-se, no conjunto de suas obras como um todo. Ainda que não ocorra a citação, percebe-se a pesquisa realizada na área e a citação implícita de autores que Machado faz, demonstrado ser pessoa de grande erudição.
C- A idéia é desenvolvida com maestria. Para uma obra tão pequena, o tema está por demais encorpado. Vale lembrar que Arlindo Machado é o maior curador de exposições de artemídia no país, tendo em seu currículo curadorias desde a década de 1980, entre elas “Arte e Tecnologia” (MAC-SP, 1985), “Cinevídeo” (MIS-SP, 1992-3) entre outras que ocorreram recentemente, como Emoção Art.Ficial II. Envolvido com pesquisa e com a arte em si, podemos dizer que suas idéias são desenvolvidas com real conhecimento de causa, embora a sua metodologia –perfeita em seu desenvolvimento- peque, como já foi dito acima, pela falta de citações diretas dos autores a quem toma emprestado as suas idéias. Os exemplos citados são quase pedagógicos, facilitando o entendimento do tema e da teoria que norteia certa caminho a ser traçado e os argumentos são consistentes e dignos de alguém que é visto por muitos como a autoridade maior no assunto.
D- O referencial teórico é adequado. Falta a citação direta de várias idéias, o que pode levar um leitor meramente curioso a pensar que a idéia de “era de sua reprodutibilidade técnica” tenha sido criada recentemente e não, como sabemos, no final da década de 1930. Todavia, ao final do livro não faltam jamais os livros de Benjamin. Quanto à idéia emprestada de Flusser, Machado foi mais generoso e dedicou um pequeno capítulo a falar deste pensador, já que podemos afirmar que o professor Arlindo é quase um discípulo do filósofo checo, pois foi parte do círculo flusseriano quando este esteve no Brasil fugido da Europa Oriental. Podemos dizer, portanto, que em função de sua metodologia de escrita e apresentação de idéias, Machado quase não faça citações, deixando o seu texto fluente e quase que apenas com “idéias próprias”. Todavia, quando faz citações ou paráfrases, o faz com conhecimento e, podemos dizer, em casos em que é extremamente necessário.
E- Ainda que estejamos falando de uma obra rápida (a publicação nem chega a ter 100 páginas e é em formato de livro de bolso) não faltam fontes primárias e secundárias. Há uma bibliografia semi-comentada ao final da obra, no qual constam as fontes e as referências bibliográficas, demonstrando se tratar de uma mera escolha por tornar o texto fluente, esta maneira de citar as idéias de outrem (uma escolha questionável, mas consciente).
F- Os parágrafos estão bem conectados, não faltando ao final de um que termina, conexão com o que começa, o mesmo ocorrendo com os capítulos. Tudo apresentado de maneira fluente, objetiva, ampla, profunda e bem estruturada.
G- A obra apresenta alguns gráficos extremamente simples para explicar conceitos básicos de semiótica. Quanto a notas e citações, estas estão presentes ao final da leitura, de maneira conectada com palavras do autor como “as idéias de tal página foram tiradas de tal autor em livro x”. Embora seja preferível, a meu ver, notas nas páginas em que foram feitas as citações, isto deixa claro duas coisas: em primeiro lugar que se trata de uma obra realizada para a fluência e a leitura fácil (dada, inclusiva, o apelo mercadológico do tema). Em segundo lugar demonstra a primazia pela fluência em vez de um certo academicismo.
A pequena obra apresenta algumas críticas já visíveis em outras publicações do autor, porém nada que venhamos a dizer que nas idéias de Arlindo Machado, o que é apresentado não há relevância. Pelo contrário, na linha de Canclini, também citado no livro Arte e Mídia, apresenta formas e formatações enquanto propostas que só podem ser dadas dentro de uma idéia de apropriação e transformação de arte e das tecnologias que poucos poderiam formular com tanta objetividade e clareza quanto Machado. Para o acadêmico, deve ser lido junto a outras obras do professor Arlindo, porém, para um curioso, será uma obra de valor quase transcendental, principalmente se este curioso for um artista sem pretensões outras que não seja o conhecimento pelo simples conhecer.
MACHADO, Arlindo, Arte e Mídia, Rio de Janeiro: Zahar, 2007.
Nietzsche Entre Montanhas
Dos aforismos, retirarei um de cada livro entre os citados: Ecce Homo, Assim Falou Zaratustra e O Anticristo e ainda um da obra Aurora. Começando por este último:
“Ai! Nenhum de nós conhece o sentimento que experimenta o torturado depois da tortura, quando foi reconduzido à sua cela com o seu segredo! –Ele o guarda entre os dentes. Como querem conhecer o júbilo da altivez humana ”.
Recentemente tivemos no congresso brasileiro um caso em que o senador José Agripino (DEM-RN) questionou a ministra da Casa Civil, Dilma Roussef, insinuando que a ministra poderia estar mentindo em suas entrevistas, já que quando foi torturada, mentiu aos militares brasileiros . Não vou adentrar no caso mas deixo abaixo o incidente tal como ocorreu e está registrado no you tube. A ministra responde a José Agripino Maia:
“Eu tinha 19 anos, eu fiquei três anos na cadeia e eu fui barbaramente torturada, senador. E qualquer pessoa que ousar dizer a verdade para seus interrogadores, compromete a vida dos seus iguais. Entregam pessoas para serem mortas. Eu me orgulho muito de ter mentido, senador, porque mentir na tortura não é fácil. Agora, na democracia se fala a verdade. Diante da tortura, quem tem coragem, dignidade, fala mentira”.
Embora o que eu tenha aqui não seja especificamente um belo comentário sobre o aforismo nitzschiano, posso apenas afirmar que, como disse o filósofo alemão, eu não sei qual sentimento experimenta o torturado quando consegue guardar o seu segredo. Mas já que no Brasil tivemos a má oportunidade de viver sobre um regime ditatorial militar e, infelizmente, tivemos muitas pessoas torturadas, ao menos nos restou o orgulho daqueles que puderam guardar tais segredos entre os dentes e que aqui podem nos informar com um orgulho à beira do choro (embora com uma pontada de indignação diante da insinuação do senador Agripino) como é escapar de três anos nas mãos de torturadores com o segredo ainda guardado.
“A última coisa que eu haveria de prometer seria ‘melhorar’ a humanidade. Eu não haverei de erigir nenhuns novos ídolos; que os velhos aprendam o que significa ter pés de barro ”.
Pois bem, antes de tudo, vale lembrar que Nietzsche escreveu a obra “Crepúsculo dos Ídolos ” na qual fala do quanto os ídolos interferem no desenvolvimento intelectual humano fazendo com que os homens caminhem com o que aqui ele denominou de “pés de barro”. Esta obra “crepuscular” tem como um dos objetivos ironizar os anteriores filósofos da humanidade, chocando a própria filosofia tradicional. Nada muito forte perto do que irá ocorrer após o livro “O Anticristo”.
Em todo caso, isto, em minha opinião, reforça a idéia de que este filósofo não criou uma filosofia da arrogância. Ao menos não uma arrogância pura e simples, sem uma profunda complexidade.
Nem seu Zaratustra e nem ele próprio (há pouca diferença entre eles) buscam a mitificação, a idolatria. Zaratustra jamais chega a ser um falante popular, mais perseguido que amado e seguido apenas por um punhado de homens superiores. Homens que, por serem superiores, devem encontrar a solidão, fugir dos ídolos e propagar a morte de Deus.
Do Zaratustra, chega até a ser difícil escolher um aforismo dentre tantos que podem ser escolhidos ao longo da obra. Farei como indica o livro “Minuto de Sabedoria” no qual sugere que tudo o que ali está é sábio e que basta ao leitor abrir aleatoriamente em qualquer página e ler o que ali está contido, refletindo sobre o que foi lido e aprendendo algo com aquilo.
No sorteio sai “Como quereis renovar-te sem primeiro te reduzires a cinzas? ”. Esta frase remete a diversos elementos do conjunto da obra de nosso autor. A pergunta afirma na realidade que um filósofo ou um sábio deve se destruir, afastar-se do que é virtuoso, do que é bom, do encontro ao caminho que “te guia a ti mesmo ”, o caminho sem facilidades, o caminho da solidão, o caminho aflitivo a si próprio, o caminho livre dos bons e justos, livre dos impulsos do amor, o caminho da vida nas cavernas e nos bosques, o caminho sempre diante dos próprios demônios. “Serás herege para ti mesmo”, diz Zaratustra, “serás feiticeiro, adivinho doido, incrédulo, ímpio e malvado”. O sábio se consome na própria chama para chegar ao caminho do criador, ama a si próprio e por isso se despreza “como só desprezam os amantes”. “Eu amo o que quer criar qualquer coisa superior a si mesmo e dessa arte sucumbe”.
Como eu disse, é até difícil escolher algo semelhante a um aforismo nesta obra cheia de sabedoria nietzschiana.
Vamos, portanto, ao último aforismo. Aquele retirado da última obra que li de Nietzsche e que, portanto, é a que mais ressona em minha mente no momento.
Cresci em uma família em que eu perguntava a meus pais e tios “afinal, Deus existe?”. A resposta variava muito pouco. Como alguns são católicos enquanto outros ateus inveterados, a resposta ensaiada por todos girava em torno de “quando você crescer você decide” ou “quando você crescer você descobre”. Assim, o ateísmo faz parte de mim desde os poucos anos de idade, quando decidi que a idéia de Deus não fazia sentido ou simplesmente não me satisfazia. Apenas lembro que na adolescência era legal e diferente ser o único ateu da turma.
Ainda assim, a obra O Anticristo não deixou de ser um “soco no estômago”. Um tratado contra o cristianismo elaborado de maneira contundente por um filósofo que foi filho de um pastor protestante e que, também em função disto, conhecia profundamente a bíblia (com B minúsculo mesmo).
Desta maneira, pego uma frase do início do livro no qual sintetiza o que para Nietzsche é o cristianismo. “O que é mais nocivo do que todos os vícios? –A compaixão que suporta a ação em benefício de todos os fracos, de todos os incapazes: o cristianismo ”.
Não há razão para prolongar comentários aqui mais do que os que já foram ditos. Fica claro porém o que, para Nietzsche, há de nocivo no cristianismo. A piedade, a compaixão e os princípios cristãos como um todo enfraquecem o homem e a sociedade. Nietzsche luta contra todos os dualismos, principalmente aqueles maniqueístas impostos pelo cristianismo. Deus está morto, O Anticristo são os novos valores de uma humanidade que deve aprender a viver sem Deus.
Aqui Nietzsche é quase niilista, e o cristianismo é o caminho de respostas que vão contra a própria existência da vida. Mas contra o dualismo tal como é Nietzsche, nesta obra também fica claro o quanto nem a fé nem a razão são os caminhos certos da existência humana. Apesar do que sugere o título, Nietzsche é um grande admirador de Jesus Cristo, acreditando ter sido ele o único e verdadeiro cristão. Por isso, uma outra frase importante do pensador ao dizer que “o evangelho morreu na cruz”.
“Ai! Nenhum de nós conhece o sentimento que experimenta o torturado depois da tortura, quando foi reconduzido à sua cela com o seu segredo! –Ele o guarda entre os dentes. Como querem conhecer o júbilo da altivez humana ”.
Recentemente tivemos no congresso brasileiro um caso em que o senador José Agripino (DEM-RN) questionou a ministra da Casa Civil, Dilma Roussef, insinuando que a ministra poderia estar mentindo em suas entrevistas, já que quando foi torturada, mentiu aos militares brasileiros . Não vou adentrar no caso mas deixo abaixo o incidente tal como ocorreu e está registrado no you tube. A ministra responde a José Agripino Maia:
“Eu tinha 19 anos, eu fiquei três anos na cadeia e eu fui barbaramente torturada, senador. E qualquer pessoa que ousar dizer a verdade para seus interrogadores, compromete a vida dos seus iguais. Entregam pessoas para serem mortas. Eu me orgulho muito de ter mentido, senador, porque mentir na tortura não é fácil. Agora, na democracia se fala a verdade. Diante da tortura, quem tem coragem, dignidade, fala mentira”.
Embora o que eu tenha aqui não seja especificamente um belo comentário sobre o aforismo nitzschiano, posso apenas afirmar que, como disse o filósofo alemão, eu não sei qual sentimento experimenta o torturado quando consegue guardar o seu segredo. Mas já que no Brasil tivemos a má oportunidade de viver sobre um regime ditatorial militar e, infelizmente, tivemos muitas pessoas torturadas, ao menos nos restou o orgulho daqueles que puderam guardar tais segredos entre os dentes e que aqui podem nos informar com um orgulho à beira do choro (embora com uma pontada de indignação diante da insinuação do senador Agripino) como é escapar de três anos nas mãos de torturadores com o segredo ainda guardado.
“A última coisa que eu haveria de prometer seria ‘melhorar’ a humanidade. Eu não haverei de erigir nenhuns novos ídolos; que os velhos aprendam o que significa ter pés de barro ”.
Pois bem, antes de tudo, vale lembrar que Nietzsche escreveu a obra “Crepúsculo dos Ídolos ” na qual fala do quanto os ídolos interferem no desenvolvimento intelectual humano fazendo com que os homens caminhem com o que aqui ele denominou de “pés de barro”. Esta obra “crepuscular” tem como um dos objetivos ironizar os anteriores filósofos da humanidade, chocando a própria filosofia tradicional. Nada muito forte perto do que irá ocorrer após o livro “O Anticristo”.
Em todo caso, isto, em minha opinião, reforça a idéia de que este filósofo não criou uma filosofia da arrogância. Ao menos não uma arrogância pura e simples, sem uma profunda complexidade.
Nem seu Zaratustra e nem ele próprio (há pouca diferença entre eles) buscam a mitificação, a idolatria. Zaratustra jamais chega a ser um falante popular, mais perseguido que amado e seguido apenas por um punhado de homens superiores. Homens que, por serem superiores, devem encontrar a solidão, fugir dos ídolos e propagar a morte de Deus.
Do Zaratustra, chega até a ser difícil escolher um aforismo dentre tantos que podem ser escolhidos ao longo da obra. Farei como indica o livro “Minuto de Sabedoria” no qual sugere que tudo o que ali está é sábio e que basta ao leitor abrir aleatoriamente em qualquer página e ler o que ali está contido, refletindo sobre o que foi lido e aprendendo algo com aquilo.
No sorteio sai “Como quereis renovar-te sem primeiro te reduzires a cinzas? ”. Esta frase remete a diversos elementos do conjunto da obra de nosso autor. A pergunta afirma na realidade que um filósofo ou um sábio deve se destruir, afastar-se do que é virtuoso, do que é bom, do encontro ao caminho que “te guia a ti mesmo ”, o caminho sem facilidades, o caminho da solidão, o caminho aflitivo a si próprio, o caminho livre dos bons e justos, livre dos impulsos do amor, o caminho da vida nas cavernas e nos bosques, o caminho sempre diante dos próprios demônios. “Serás herege para ti mesmo”, diz Zaratustra, “serás feiticeiro, adivinho doido, incrédulo, ímpio e malvado”. O sábio se consome na própria chama para chegar ao caminho do criador, ama a si próprio e por isso se despreza “como só desprezam os amantes”. “Eu amo o que quer criar qualquer coisa superior a si mesmo e dessa arte sucumbe”.
Como eu disse, é até difícil escolher algo semelhante a um aforismo nesta obra cheia de sabedoria nietzschiana.
Vamos, portanto, ao último aforismo. Aquele retirado da última obra que li de Nietzsche e que, portanto, é a que mais ressona em minha mente no momento.
Cresci em uma família em que eu perguntava a meus pais e tios “afinal, Deus existe?”. A resposta variava muito pouco. Como alguns são católicos enquanto outros ateus inveterados, a resposta ensaiada por todos girava em torno de “quando você crescer você decide” ou “quando você crescer você descobre”. Assim, o ateísmo faz parte de mim desde os poucos anos de idade, quando decidi que a idéia de Deus não fazia sentido ou simplesmente não me satisfazia. Apenas lembro que na adolescência era legal e diferente ser o único ateu da turma.
Ainda assim, a obra O Anticristo não deixou de ser um “soco no estômago”. Um tratado contra o cristianismo elaborado de maneira contundente por um filósofo que foi filho de um pastor protestante e que, também em função disto, conhecia profundamente a bíblia (com B minúsculo mesmo).
Desta maneira, pego uma frase do início do livro no qual sintetiza o que para Nietzsche é o cristianismo. “O que é mais nocivo do que todos os vícios? –A compaixão que suporta a ação em benefício de todos os fracos, de todos os incapazes: o cristianismo ”.
Não há razão para prolongar comentários aqui mais do que os que já foram ditos. Fica claro porém o que, para Nietzsche, há de nocivo no cristianismo. A piedade, a compaixão e os princípios cristãos como um todo enfraquecem o homem e a sociedade. Nietzsche luta contra todos os dualismos, principalmente aqueles maniqueístas impostos pelo cristianismo. Deus está morto, O Anticristo são os novos valores de uma humanidade que deve aprender a viver sem Deus.
Aqui Nietzsche é quase niilista, e o cristianismo é o caminho de respostas que vão contra a própria existência da vida. Mas contra o dualismo tal como é Nietzsche, nesta obra também fica claro o quanto nem a fé nem a razão são os caminhos certos da existência humana. Apesar do que sugere o título, Nietzsche é um grande admirador de Jesus Cristo, acreditando ter sido ele o único e verdadeiro cristão. Por isso, uma outra frase importante do pensador ao dizer que “o evangelho morreu na cruz”.
Sobre o filme "Quando Nietzsce Chorou"
O filme “Quando Nietzsche chorou” é sem dúvida uma boa estória sobre uma grande história. Eu nem cheguei a me deter quanto à veracidade dos fatos (o que também não pretendo fazer) e tampouco li o livro homônimo que originou a película, ainda que tenha ficado curioso quanto a tal conteúdo. Importa, para mim, que acima de tudo foi uma boa narrativa contada de maneira irônica sem deixar de ter certa profundidade, mesmo que saibamos que em termos holywoodianos profundidade não é das ferramentas preferidas.
A atuação dos atores foi interessante, embora fosse preferível que o filme estivesse em alemão para maior convencimento, mas os sotaques germânicos, além da atriz com acento russo (que interpretava Lou Salome), foram perceptíveis até mesmo entre os que não dominam a fala inglesa.
O intrigante é que aqueles que já se dedicaram um livro que fosse na profunda alma de Nietzche se perguntaria, como eu fiz e imagino que outros o fizeram, “o que diabos tiraria lágrimas de Nietzsche?”. Em princípio, um homem fora de seu tempo, um precursor de tempos vindouros, um filósofo que não tinha como ser compreendido em seu contexto mas que nem por isso fraquejou e desta dificuldade retirou suas forças. Um homem forjado no perigo que prenunciou (ou melhor, anunciou) a morte de Deus.
Claro que o clichê de “Deus está morto” foi utilizado levianamente no filme (é Estados Unidos, não esqueçamos). Também é claro que o Sigmund (Dr. Freud) foi utilizado como o pensador “pop” que merecidamente o é, e como tal, um ator perfeitamente bonito e apessoado, chamado carinhosamente de “Sig” pelos maiorais do filme. Mas poderia ser pior. Os roteiristas estadunidenses poderiam ter mudado a narrativa do livro e colocado Freud com Nietzsche simplesmente porque venderia melhor (já fizeram algo parecido, como no caso do “Liga Extraordinária”, um entre milhares de exemplos). Mas aqui não é o caso para se falar do que poderia ter sido feito e sim do que fizeram.
Fato é que conseguiram colocar uma comédia irônica quando o filme centrava mais no Dr. Breuer ao mesmo tempo em que passaram a desesperadora loucura genial do filósofo alemão que pensou o suprahomem. Fato importante de se fazer nota, separaram bem as idéias nietzscheanas das idéias nazistas, inclusive colocando erroneamente (mas não despropositadamente) que tais idéias separaram Nietzsche de Wagner. Fizeram isto de maneira subentendida, mas o fizeram.
A atuação dos atores foi interessante, embora fosse preferível que o filme estivesse em alemão para maior convencimento, mas os sotaques germânicos, além da atriz com acento russo (que interpretava Lou Salome), foram perceptíveis até mesmo entre os que não dominam a fala inglesa.
O intrigante é que aqueles que já se dedicaram um livro que fosse na profunda alma de Nietzche se perguntaria, como eu fiz e imagino que outros o fizeram, “o que diabos tiraria lágrimas de Nietzsche?”. Em princípio, um homem fora de seu tempo, um precursor de tempos vindouros, um filósofo que não tinha como ser compreendido em seu contexto mas que nem por isso fraquejou e desta dificuldade retirou suas forças. Um homem forjado no perigo que prenunciou (ou melhor, anunciou) a morte de Deus.
Claro que o clichê de “Deus está morto” foi utilizado levianamente no filme (é Estados Unidos, não esqueçamos). Também é claro que o Sigmund (Dr. Freud) foi utilizado como o pensador “pop” que merecidamente o é, e como tal, um ator perfeitamente bonito e apessoado, chamado carinhosamente de “Sig” pelos maiorais do filme. Mas poderia ser pior. Os roteiristas estadunidenses poderiam ter mudado a narrativa do livro e colocado Freud com Nietzsche simplesmente porque venderia melhor (já fizeram algo parecido, como no caso do “Liga Extraordinária”, um entre milhares de exemplos). Mas aqui não é o caso para se falar do que poderia ter sido feito e sim do que fizeram.
Fato é que conseguiram colocar uma comédia irônica quando o filme centrava mais no Dr. Breuer ao mesmo tempo em que passaram a desesperadora loucura genial do filósofo alemão que pensou o suprahomem. Fato importante de se fazer nota, separaram bem as idéias nietzscheanas das idéias nazistas, inclusive colocando erroneamente (mas não despropositadamente) que tais idéias separaram Nietzsche de Wagner. Fizeram isto de maneira subentendida, mas o fizeram.
De aforismos e montanhas
Fazia algum tempo que eu esperava as ditas aulas que colocavam em diálogo Nietzsche e a comunicação. Entre alguns alunos mais interessados, já comentávamos tal diálogo era em si intrigante e que fosse por qual fosse o motivo, valeria a pena assisti-las.
Minhas histórias pessoais com as obras de Nietzsche sempre foram curiosas. O primeiro livro que li do filósofo foi Ecce Homo e quando me pus a ler acreditei que não iria realmente gostar do que estava por vir, porém, tenho um ditado pessoal o qual diz que “clássicos não devem ser apenas discutidos, devem ser lidos”. Assim, a qualquer momento eu iria passar por Nietzsche ainda que fosse por mera formalidade intelectual.
Pois bem, não preciso dizer o quanto foram avassaladoras as palavras do filósofo alemão a cada página que lia. Virei fã incondicional de Nietzsche e me pus a ler mais sobre ele e do que ele escreveu.
Domino um pouco da língua e acabo por conviver com diversos círculos de alemães nos quais pude fazer alguns debates. Porém, notei que a percepção que adquiri da obra nietzschiana era um tanto distinta, principalmente em função do fato ao qual alguns dos adeptos deste autor acreditavam que a obra era uma ode a um estilo de vida de certa forma pedante, para não dizer diretamente arrogante. Eu, de minha parte, não via da mesma maneira.
Acredito, antes de mais nada, que a vida miserável que levou Nietzsche, entre a eterna angústia e loucura solitárias, não o direcionaria à arrogância pura e sim à percepção que ele mesmo tantas vezes bradou e da qual eu compartilho: ele era um homem à frente de sua época. Em seu Zaratustra dizia: “para os homens sou algo intermediário entre o doido e o cadáver ”.
Acreditar ser visto desta maneira pelos homens não é motivo de orgulho em momento algum da obra nietzsciana, obra intrinsecamente ligada à sua própria biografia. Tal maneira de ver o mundo e por ele ser visto, levou-o a desconfiança total e o fez abandonar a vida social em 1881, ano em que tentou o suicídio por três vezes. Por estas razões, vejo em Nietzsche um visionário fora de sua época, que tira
Mesmo a idéia de supra-homem é um ideal de humano a que Nietzsche desejava para a humanidade como um todo e não apenas para si. O próprio Zaratustra, alterego do filósofo, angustiava-se por não ser a sociedade ainda composta por supra-homens, mas a superação do homem para esta nova fase seria tão natural quanto a do homem em si diante do macaco. “Que é o macaco para o homem? Uma zombaria ou uma dolorosa vergonha. Pois é o mesmo que deve ser o homem para Super-homem (Übermensch): um irrisão ou uma dolorosa vergonha ”.
Mas continuando na narrativa de minhas histórias pessoais com a obra de Nietzsche, crio que após o Ecce Homo eu realmente finalizei a leitura da obra com duas idéias principais. A primeira era a de que para escrever uma autobiografia colocando-se como superior aos amigos e a humanidade como um todo, havia mais de loucura do que de soberba naquele homem. A segunda idéia era mais clara, era que seria impossível ler uma obra de Nietzsche sem ser profundamente tocado por ela. E desta maneira segui, meses depois de Ecce Homo, para o Zaratustra.
Nestes entremeios de leituras, sabíamos, pela grade curricular, que em breve teríamos, como já foi dito, uma disciplina no mestrado na qual Nietzsche seria colocado diante de questões comunicacionais. Estamos falando de 2009. Muitos fizemos a disciplina e, na semana seguinte à disciplina, passe um trabalho de análise fílmica para meus alunos de produção audiovisual. Para a resolução do trabalho, cada aluno escolheria um filme e uma aluna acabou por escolher coincidentemente o filme quando Nietzsche chorou.
Após fazer a disciplina estar com este filme na mão, seria impossível não assistir a tal história. Assisti e fui tocado pelo filme. Decidi então que era hora de ler mais uma obra nietzschiana. O livro escolhido foi “O Anticristo”. Um livro forte, cheio de caos e verdade. Desrecomendado para carolas e beatos.
Enfim, foi chegada a hora de fazer o trabalho da disciplina do mestrado e a tarefa era comentar cinco aforismos de Nietzsche. Eu, de minha parte resolvi subverter um pouco essa Aufgaben e comentar quatro aforismo e o dito filme do qual falei. Acho até mesmo que já citei dois aforismos de Nietzsche e que se quisesse ficar com apenas mais três (ou mais dois e o filme) daria conta do recado passado pelo professor Dr. Francisco. Mas vamos devagar devagarinho, matando um leão por vez. Nietzsche disse em seu Zaratustra que um aforismo é como ligar os topos de duas montanhas. Não é necessário percorrer os longos caminhos entre um topo e outro se em um homem existe a capacidade de compreender os aforismos –e claro, de criá-los.
Minhas histórias pessoais com as obras de Nietzsche sempre foram curiosas. O primeiro livro que li do filósofo foi Ecce Homo e quando me pus a ler acreditei que não iria realmente gostar do que estava por vir, porém, tenho um ditado pessoal o qual diz que “clássicos não devem ser apenas discutidos, devem ser lidos”. Assim, a qualquer momento eu iria passar por Nietzsche ainda que fosse por mera formalidade intelectual.
Pois bem, não preciso dizer o quanto foram avassaladoras as palavras do filósofo alemão a cada página que lia. Virei fã incondicional de Nietzsche e me pus a ler mais sobre ele e do que ele escreveu.
Domino um pouco da língua e acabo por conviver com diversos círculos de alemães nos quais pude fazer alguns debates. Porém, notei que a percepção que adquiri da obra nietzschiana era um tanto distinta, principalmente em função do fato ao qual alguns dos adeptos deste autor acreditavam que a obra era uma ode a um estilo de vida de certa forma pedante, para não dizer diretamente arrogante. Eu, de minha parte, não via da mesma maneira.
Acredito, antes de mais nada, que a vida miserável que levou Nietzsche, entre a eterna angústia e loucura solitárias, não o direcionaria à arrogância pura e sim à percepção que ele mesmo tantas vezes bradou e da qual eu compartilho: ele era um homem à frente de sua época. Em seu Zaratustra dizia: “para os homens sou algo intermediário entre o doido e o cadáver ”.
Acreditar ser visto desta maneira pelos homens não é motivo de orgulho em momento algum da obra nietzsciana, obra intrinsecamente ligada à sua própria biografia. Tal maneira de ver o mundo e por ele ser visto, levou-o a desconfiança total e o fez abandonar a vida social em 1881, ano em que tentou o suicídio por três vezes. Por estas razões, vejo em Nietzsche um visionário fora de sua época, que tira
Mesmo a idéia de supra-homem é um ideal de humano a que Nietzsche desejava para a humanidade como um todo e não apenas para si. O próprio Zaratustra, alterego do filósofo, angustiava-se por não ser a sociedade ainda composta por supra-homens, mas a superação do homem para esta nova fase seria tão natural quanto a do homem em si diante do macaco. “Que é o macaco para o homem? Uma zombaria ou uma dolorosa vergonha. Pois é o mesmo que deve ser o homem para Super-homem (Übermensch): um irrisão ou uma dolorosa vergonha ”.
Mas continuando na narrativa de minhas histórias pessoais com a obra de Nietzsche, crio que após o Ecce Homo eu realmente finalizei a leitura da obra com duas idéias principais. A primeira era a de que para escrever uma autobiografia colocando-se como superior aos amigos e a humanidade como um todo, havia mais de loucura do que de soberba naquele homem. A segunda idéia era mais clara, era que seria impossível ler uma obra de Nietzsche sem ser profundamente tocado por ela. E desta maneira segui, meses depois de Ecce Homo, para o Zaratustra.
Nestes entremeios de leituras, sabíamos, pela grade curricular, que em breve teríamos, como já foi dito, uma disciplina no mestrado na qual Nietzsche seria colocado diante de questões comunicacionais. Estamos falando de 2009. Muitos fizemos a disciplina e, na semana seguinte à disciplina, passe um trabalho de análise fílmica para meus alunos de produção audiovisual. Para a resolução do trabalho, cada aluno escolheria um filme e uma aluna acabou por escolher coincidentemente o filme quando Nietzsche chorou.
Após fazer a disciplina estar com este filme na mão, seria impossível não assistir a tal história. Assisti e fui tocado pelo filme. Decidi então que era hora de ler mais uma obra nietzschiana. O livro escolhido foi “O Anticristo”. Um livro forte, cheio de caos e verdade. Desrecomendado para carolas e beatos.
Enfim, foi chegada a hora de fazer o trabalho da disciplina do mestrado e a tarefa era comentar cinco aforismos de Nietzsche. Eu, de minha parte resolvi subverter um pouco essa Aufgaben e comentar quatro aforismo e o dito filme do qual falei. Acho até mesmo que já citei dois aforismos de Nietzsche e que se quisesse ficar com apenas mais três (ou mais dois e o filme) daria conta do recado passado pelo professor Dr. Francisco. Mas vamos devagar devagarinho, matando um leão por vez. Nietzsche disse em seu Zaratustra que um aforismo é como ligar os topos de duas montanhas. Não é necessário percorrer os longos caminhos entre um topo e outro se em um homem existe a capacidade de compreender os aforismos –e claro, de criá-los.
terça-feira, 26 de janeiro de 2010
Um olhar sobre eu personagem e o pânico da solidão
O objetivo deste trabalho é tão somente lançar um olhar sobre o texto selecionado de Paula Sibilia. Após ler este capítulo de obra “Eu personagem e o pânico da solidão”, passei a questionar o meu lugar diante das mídias e novas tecnologias da virtualidade. Me posicionando em um lugar comum perigoso, fico entre os caminhos de quem pode viver sem internet, porém usufrui constantemente dela, lembrando longinquamente que tias críticas à web e suas benesses\seus malefícios me lembram vagamente ruídos que ouvi sobre a TV, veículo ao qual –este sim –nasci e cresci ao lado.
Aqui não poderia me prestar ao rigor acadêmico, pois toda a reflexão é ainda muito recente para mim. O que fiz é algo como um ensaio-resenha-crônica de um texto que me estranhou –no sentido de estranhamento\novidade –e no qual por vezes me vi passionalmente ligado positivamente às idéias de Sibilia e por outras acreditei ver em suas palavras uma crítica a certas condutas das quais eu compartilhei e não necessariamente cheguei a concordar com a autora.
Se em determinados momentos parecer que estou concordando ou discordando de Paula Sibilia, em meu íntimo apenas estava refletindo suas palavras. São idéias que se debruçam sobre algo muito recente, atual e que mesmo ela não chega a atingir tais questões da maneira mais acadêmica tradicional ou como sonharia o mais intenso dos pesquisadores de comunicação –ao invés da pressão por autores atuais, ela dialoga a internet e a web principalmente com Walter Benjamin e Guy Debord.
Assim, estando em outro campo de pesquisa e pouco tendo refletido sobre mídias da virtualidade e a sociedade que a cerca, pouco mais farei que deixar meus pensamentos fluírem sobre o assunto.
O olhar sobre outro olhar
Eu não nasci com um computador na mão, mas na minha casa –de meu avô, em realidade –já tinha televisão. Cheguei a ver quando a velha TV preto e branco foi trocada por uma colorida. Tinham vizinhos que iam e vinham, de acordo com a programação televisiva, bem como algumas horas eram sagradas para nós crianças, pois era hora de determinado desenho animado ou uma série imperdível.
Pois bem, pouco tempo depois veio o computador, e de lá para cá alterno momentos em que me sinto integrado e outros apocalípticos; momentos de estabelecido e de outsider. Desta maneira, o texto de Paula Sibilia mexe com uma pergunta íntima, na qual eu me questiono “afinal, como é que eu me encaixo em tudo isto?”.
Embora ela cite que ao artesão medieval, importava à sociedade ao seu entorno “o que ele fazia, e não o que ele era ”, me questiono se já nas sociedades medievais não havia jogos de papéis e de representações. Em realidade, falando como o historiador que pretensamente sou, tenho dificuldades em compreender reais mudanças no caráter humano ao longo de sua história, embora aqui não se trate precisamente de uma questão de caráter –nem o deixe de ser.
Já na década de 1930 Walter Benjamin afirmava que a narrativa estava em crise e a fábula quase perdida. Por vezes penso que com o advento da internet algo de narrativo e fabuloso volta às contações de história e suas variações, mas como isso ocorre ou se de fato ocorre, não posso dizer. Fruto desta geração híbrida que não nasceu com computadores mas em menos de uma década já começou a ter acesso a eles, consigo vislumbrar um mundo o qual não posso definir. Sei que o texto de Sibilia não é exatamente um farol para os mares tortuosos.
Não creio, fundamentalmente, que as belas narrações são um caso perdido, por exemplo. Acredito que é possível encontrar uma nova narrativa bela em meio ao mar tecnológico, bem como questiono –a mim mesmo –se em meio à quantidade não está contida –no oceano mais profundo e tenebroso –algumas qualidades. Chego até a imaginar que bom narrador cometeria o erro de colocar suas belas narrações na rede, sujeitando-se ao que há de pior, que não é a visibilidade, mas o milenar plágio que também se acelerou com os veículos virtuais.
Quanto ao brilho proporcionado pelas mídias, gerador de “celebridades que nascem e morrem sem nada ter feito de extraordinário” , continuo no plano dos questionamentos intermediários e levanto o ponto se é de fato ruim uma sociedade em que a fama atinge uma quantidade maior de pessoas. De um viés democrático, penso que a fama esteve historicamente ligada aos grandes homens e mulheres, oriundos principalmente de uma elite social. Embora este panorama não tenha encontrado o seu fim com a web, a democratização dos meios, que está ocorrendo no ocidente a passos lentos porém profícuos, acaba por democratizar as possibilidades, ocasionando assim um novo circuito de famosos.
O que cabe debater igualmente é o seguinte: podendo eu ser um famoso, o que, afinal, há de mais em um famoso? Ou seja, quando qualquer um pode ser um famoso, podemos começar a questionar o que tinham a mais os antigos famosos além de um glamour inacessível. Mas a aura está em declínio e com ela o glamour, “democratizando a fama”, percebo a humanidade dos antigos famosos, bem como a falsidade de diversas famas. Imagino ainda que os que superaram a todos os famosos efêmeros e se perpetuar no patamar mais alto, este sim será o famoso mais glamuroso, pois atingiu seu píncaro quando qualquer um se arvorava a alcançá-lo.
Sobre o eu alterdirigido e mutante , é talvez na indústria fonográfica onde podemos detectar o maior número de exemplos de como, neste momento, Sibilia atinge uma razão quase sem rebatimentos. A personalidade mutante é uma constante, por exemplo, no mundo pop musical, em que já não há qualquer fidelidade a estilos ou estéticas. Os chamados megastars, como Michael Jackson, David Bowie e Madonna, por exemplo, conseguem agregar valor a suas obras exatamente por serem mutantes, estando mais a mercê das volúpias do mercado que ao agrado dos fiéis fãs. Os códigos e as regras mudam, os astros são, em alguma medida, catalisadores e por outro lado sujeitos para além de qualquer escolha, pois devem estar interagindo constantemente com esses novos costumes e códigos, devendo igualmente serem facilmente adaptados ao dinamismo das mídias.
Entretanto, no momento em que Sibilia afirma que “essa dificuldade para conciliar o eu público e o eu privado (...) provavelmente esteja se extinguindo hoje em dia” , aqui volto a repensar o caso de que com a democratização dos meios, o glamour é igualmente democratizado ou totalmente desvendado. Ou seja, quando temos a percepção do que é uma edição, percebemos também que o famoso ostenta tal estatus em função de ter apresentado na esfera pública uma vida editada. Quando um indivíduo atinge acesso a meios de produção audiovisuais, alcança a possibilidade de editar a própria vida e percebe os truques e as tramas que revelam os famosos. Ao tentar uma boa filmagem de si e perceber que esta não foi possível pela falta de uma boa maquiagem e uma boa iluminação, compreende que a beleza do famoso, por exemplo, está vinculada a todo o domínio de uma técnica e tecnologia para além da mera beleza natural.
Também é perceptível, nos antigos famosos, o quanto eles preservavam a sua imagem, tornando um escândalo algo tremendo em função de ninguém conceber que Charles Chaplin batia na esposa ou que determinado ator/atriz detestaria, por exemplo, pobres ou era racista. Estando isto relacionado com a vida editada e com um caráter velado, a publicização da vida privada acaba por decretar o fim da separação entre esfera pública e esfera privada –o eu público e o eu privado- de artistas e humanizando-os ainda que contra a vontade destes.
De qualquer maneira pode surgir deste meio um novo tipo de artista com suas técnicas e conhecimentos mais palpáveis, o que é uma outra realidade. Com a facilidade do alcance à web, o autodidatismo fica mais latente. Cursos, vídeos e métodos antes confinado aos conservatórios e escolas agora podem ser acessados pela web, permitindo que o artista, por exemplo, possua um conhecimento construído no eu privado. A disponibilização destas informações pelos próprios autodidatas que usufruíram destes dados amplia a quantidade de pessoas que continuam acessando e se formando –ainda que majoritariamente de maneira parca –tornando o saber sobre uma determinada técnica algo menos mítico. Com isto pode-se até perceber que “fulano ou beltrano” não possui um conhecimento tão inestimável assim, ou que aquilo que se realiza não é um grande feito, pois agora se sabe como atingir tal saber.
Embora os reality shows sejam absolutamente tudo o que Sibilia afirma –ou ainda piores –eu, que estou no limbo entre a velha TV citada acima e o acesso às tecnologias da virtualidade, ainda sinto falta de que sejam citados determinados elementos positivos da web. O mesmo youtube, por ela tão duramente criticado, possui tantos programas e documentações visuais importantes, colocadas ali por usuários que deveriam ser melhor acessados por acadêmicos. Cito, por exemplo, o caso de minhas pesquisas sobre música na televisão durante o regime militar brasileiro. No Rio de Janeiro, o Museu da Imagem e do Som e parte do acervo visual da TV Globo pegaram fogo, sobrando apenas alguma coisa. Com o surgimento do youtube, usuários colocaram ali toda a sorte de festivais musicais televisivos, entrevistas de décadas atrás com cantores que vivenciaram o período, sendo agentes históricos ativos, que não posso me debruçar por muito tempo apenas a criticar negativamente a fonte de tantas informações.
No mesmo youtube estão também tutoriais e diversos manuais visuais que facilitam a utilização de diversas ferramentas, antes privilégio de alguns. Assim podemos, por exemplo, visualizar como se fosse uma aula a maneira de aprender quase qualquer programa –softwere- a ser instalado em um computador. Através dos fóruns tira-se dúvidas e nos portais de relacionamento podemos trocar informações sem que a preocupação primordial seja a fama de poucos minutos (ou segundos). Porém aos olhos de Sibilia este fato pode ter sido relegado a um segundo plano em função, claro, de ela estar tratando da constituição de uma personagem nas sociedades contemporâneas recentes, do início do século XXI.
No tocante às alterações corporais e à obrigação de ser singular , aqui a autora toca em um assunto que vem beirando o cúmulo do bizarro. Quando vemos que para atingir tal singularidade artistas como Marlin Manson deformaram todo o corpo, serrando os dentes e fazendo diversos implantes até tornar-se o que em qualquer época da humanidade seria um monstro, é porque sequer temos a clara noção do que é ser único ou que para ser único devemos nos afastar o quanto mais for possível do aspecto de humanidade. Isto sim é o que a autora afirma ser “converter o próprio eu em um show”, espetacularizar a própria personalidade “recorrendo a métodos comparáveis aos de uma grife pessoal que deve ser bem posicionada no mercado. Pois a imagem de cada um é a sua própria marca, um capital tão valioso que é necessário cuidá-lo e cultivá-lo, a fim de encarnar um personagem atraente no competitivo mercado dos olhares” .
É interessante notar como Sibilia percebe a queda da aura individual, que “teria se apagado com a proliferação de cópias, simulacros e falsificações de subjetividades descartáveis na sociedade do espetáculo, com sua fábrica de personagens alterdirigidas. Daí a ansiedade atual por recompor de algum modo a aura perdida, por se apropriar de qualquer coisa que pareça aparentada com aquela auréola de unicidade tão difícil de conseguir hoje em dia” . Remete um pouco a Freud quando este escreve sua obra de psicanálise coletiva titulada O Mal Estar da Civilização, em que o homem estaria eternamente procurando o elo perdido com a natureza ao mesmo tempo em que estaria invariavelmente se afastando da própria natureza e de suas leis, utilizando-se de artifícios –como os jardins ou vasos de plantas nas janelas de apartamentos –para provar a si mesmo que ainda está conectado com o natural.
Chegando a um ponto em que Sibilia cita mais uma vez Benjamin, explicitando o quanto a experiência está em vias de extinção na sociedade, de fato não apenas a experiência –individual e coletiva- quanto, e por conseqüência lógica, a memória. Na mordernidade já não mais narramos as nossas viagens, apenas mostramos as fotos. Não guardamos informações as mais necessárias para o caminhar da vida, acessamos ao google. Não gravamos os telefones dos entes familiares a quem mais ligamos, apenas acionamos um comando de voz no celular ou apertamos um botão em que está o nome da pessoa a quem nos interessa ligar. Até para um indivíduo falar sobre si mesmo, ele diz “acesse o meu blog, tudo da minha vida está lá”. E assim os seres humanos seguem até que venham a esquecer quem realmente são.
Aqui não poderia me prestar ao rigor acadêmico, pois toda a reflexão é ainda muito recente para mim. O que fiz é algo como um ensaio-resenha-crônica de um texto que me estranhou –no sentido de estranhamento\novidade –e no qual por vezes me vi passionalmente ligado positivamente às idéias de Sibilia e por outras acreditei ver em suas palavras uma crítica a certas condutas das quais eu compartilhei e não necessariamente cheguei a concordar com a autora.
Se em determinados momentos parecer que estou concordando ou discordando de Paula Sibilia, em meu íntimo apenas estava refletindo suas palavras. São idéias que se debruçam sobre algo muito recente, atual e que mesmo ela não chega a atingir tais questões da maneira mais acadêmica tradicional ou como sonharia o mais intenso dos pesquisadores de comunicação –ao invés da pressão por autores atuais, ela dialoga a internet e a web principalmente com Walter Benjamin e Guy Debord.
Assim, estando em outro campo de pesquisa e pouco tendo refletido sobre mídias da virtualidade e a sociedade que a cerca, pouco mais farei que deixar meus pensamentos fluírem sobre o assunto.
O olhar sobre outro olhar
Eu não nasci com um computador na mão, mas na minha casa –de meu avô, em realidade –já tinha televisão. Cheguei a ver quando a velha TV preto e branco foi trocada por uma colorida. Tinham vizinhos que iam e vinham, de acordo com a programação televisiva, bem como algumas horas eram sagradas para nós crianças, pois era hora de determinado desenho animado ou uma série imperdível.
Pois bem, pouco tempo depois veio o computador, e de lá para cá alterno momentos em que me sinto integrado e outros apocalípticos; momentos de estabelecido e de outsider. Desta maneira, o texto de Paula Sibilia mexe com uma pergunta íntima, na qual eu me questiono “afinal, como é que eu me encaixo em tudo isto?”.
Embora ela cite que ao artesão medieval, importava à sociedade ao seu entorno “o que ele fazia, e não o que ele era ”, me questiono se já nas sociedades medievais não havia jogos de papéis e de representações. Em realidade, falando como o historiador que pretensamente sou, tenho dificuldades em compreender reais mudanças no caráter humano ao longo de sua história, embora aqui não se trate precisamente de uma questão de caráter –nem o deixe de ser.
Já na década de 1930 Walter Benjamin afirmava que a narrativa estava em crise e a fábula quase perdida. Por vezes penso que com o advento da internet algo de narrativo e fabuloso volta às contações de história e suas variações, mas como isso ocorre ou se de fato ocorre, não posso dizer. Fruto desta geração híbrida que não nasceu com computadores mas em menos de uma década já começou a ter acesso a eles, consigo vislumbrar um mundo o qual não posso definir. Sei que o texto de Sibilia não é exatamente um farol para os mares tortuosos.
Não creio, fundamentalmente, que as belas narrações são um caso perdido, por exemplo. Acredito que é possível encontrar uma nova narrativa bela em meio ao mar tecnológico, bem como questiono –a mim mesmo –se em meio à quantidade não está contida –no oceano mais profundo e tenebroso –algumas qualidades. Chego até a imaginar que bom narrador cometeria o erro de colocar suas belas narrações na rede, sujeitando-se ao que há de pior, que não é a visibilidade, mas o milenar plágio que também se acelerou com os veículos virtuais.
Quanto ao brilho proporcionado pelas mídias, gerador de “celebridades que nascem e morrem sem nada ter feito de extraordinário” , continuo no plano dos questionamentos intermediários e levanto o ponto se é de fato ruim uma sociedade em que a fama atinge uma quantidade maior de pessoas. De um viés democrático, penso que a fama esteve historicamente ligada aos grandes homens e mulheres, oriundos principalmente de uma elite social. Embora este panorama não tenha encontrado o seu fim com a web, a democratização dos meios, que está ocorrendo no ocidente a passos lentos porém profícuos, acaba por democratizar as possibilidades, ocasionando assim um novo circuito de famosos.
O que cabe debater igualmente é o seguinte: podendo eu ser um famoso, o que, afinal, há de mais em um famoso? Ou seja, quando qualquer um pode ser um famoso, podemos começar a questionar o que tinham a mais os antigos famosos além de um glamour inacessível. Mas a aura está em declínio e com ela o glamour, “democratizando a fama”, percebo a humanidade dos antigos famosos, bem como a falsidade de diversas famas. Imagino ainda que os que superaram a todos os famosos efêmeros e se perpetuar no patamar mais alto, este sim será o famoso mais glamuroso, pois atingiu seu píncaro quando qualquer um se arvorava a alcançá-lo.
Sobre o eu alterdirigido e mutante , é talvez na indústria fonográfica onde podemos detectar o maior número de exemplos de como, neste momento, Sibilia atinge uma razão quase sem rebatimentos. A personalidade mutante é uma constante, por exemplo, no mundo pop musical, em que já não há qualquer fidelidade a estilos ou estéticas. Os chamados megastars, como Michael Jackson, David Bowie e Madonna, por exemplo, conseguem agregar valor a suas obras exatamente por serem mutantes, estando mais a mercê das volúpias do mercado que ao agrado dos fiéis fãs. Os códigos e as regras mudam, os astros são, em alguma medida, catalisadores e por outro lado sujeitos para além de qualquer escolha, pois devem estar interagindo constantemente com esses novos costumes e códigos, devendo igualmente serem facilmente adaptados ao dinamismo das mídias.
Entretanto, no momento em que Sibilia afirma que “essa dificuldade para conciliar o eu público e o eu privado (...) provavelmente esteja se extinguindo hoje em dia” , aqui volto a repensar o caso de que com a democratização dos meios, o glamour é igualmente democratizado ou totalmente desvendado. Ou seja, quando temos a percepção do que é uma edição, percebemos também que o famoso ostenta tal estatus em função de ter apresentado na esfera pública uma vida editada. Quando um indivíduo atinge acesso a meios de produção audiovisuais, alcança a possibilidade de editar a própria vida e percebe os truques e as tramas que revelam os famosos. Ao tentar uma boa filmagem de si e perceber que esta não foi possível pela falta de uma boa maquiagem e uma boa iluminação, compreende que a beleza do famoso, por exemplo, está vinculada a todo o domínio de uma técnica e tecnologia para além da mera beleza natural.
Também é perceptível, nos antigos famosos, o quanto eles preservavam a sua imagem, tornando um escândalo algo tremendo em função de ninguém conceber que Charles Chaplin batia na esposa ou que determinado ator/atriz detestaria, por exemplo, pobres ou era racista. Estando isto relacionado com a vida editada e com um caráter velado, a publicização da vida privada acaba por decretar o fim da separação entre esfera pública e esfera privada –o eu público e o eu privado- de artistas e humanizando-os ainda que contra a vontade destes.
De qualquer maneira pode surgir deste meio um novo tipo de artista com suas técnicas e conhecimentos mais palpáveis, o que é uma outra realidade. Com a facilidade do alcance à web, o autodidatismo fica mais latente. Cursos, vídeos e métodos antes confinado aos conservatórios e escolas agora podem ser acessados pela web, permitindo que o artista, por exemplo, possua um conhecimento construído no eu privado. A disponibilização destas informações pelos próprios autodidatas que usufruíram destes dados amplia a quantidade de pessoas que continuam acessando e se formando –ainda que majoritariamente de maneira parca –tornando o saber sobre uma determinada técnica algo menos mítico. Com isto pode-se até perceber que “fulano ou beltrano” não possui um conhecimento tão inestimável assim, ou que aquilo que se realiza não é um grande feito, pois agora se sabe como atingir tal saber.
Embora os reality shows sejam absolutamente tudo o que Sibilia afirma –ou ainda piores –eu, que estou no limbo entre a velha TV citada acima e o acesso às tecnologias da virtualidade, ainda sinto falta de que sejam citados determinados elementos positivos da web. O mesmo youtube, por ela tão duramente criticado, possui tantos programas e documentações visuais importantes, colocadas ali por usuários que deveriam ser melhor acessados por acadêmicos. Cito, por exemplo, o caso de minhas pesquisas sobre música na televisão durante o regime militar brasileiro. No Rio de Janeiro, o Museu da Imagem e do Som e parte do acervo visual da TV Globo pegaram fogo, sobrando apenas alguma coisa. Com o surgimento do youtube, usuários colocaram ali toda a sorte de festivais musicais televisivos, entrevistas de décadas atrás com cantores que vivenciaram o período, sendo agentes históricos ativos, que não posso me debruçar por muito tempo apenas a criticar negativamente a fonte de tantas informações.
No mesmo youtube estão também tutoriais e diversos manuais visuais que facilitam a utilização de diversas ferramentas, antes privilégio de alguns. Assim podemos, por exemplo, visualizar como se fosse uma aula a maneira de aprender quase qualquer programa –softwere- a ser instalado em um computador. Através dos fóruns tira-se dúvidas e nos portais de relacionamento podemos trocar informações sem que a preocupação primordial seja a fama de poucos minutos (ou segundos). Porém aos olhos de Sibilia este fato pode ter sido relegado a um segundo plano em função, claro, de ela estar tratando da constituição de uma personagem nas sociedades contemporâneas recentes, do início do século XXI.
No tocante às alterações corporais e à obrigação de ser singular , aqui a autora toca em um assunto que vem beirando o cúmulo do bizarro. Quando vemos que para atingir tal singularidade artistas como Marlin Manson deformaram todo o corpo, serrando os dentes e fazendo diversos implantes até tornar-se o que em qualquer época da humanidade seria um monstro, é porque sequer temos a clara noção do que é ser único ou que para ser único devemos nos afastar o quanto mais for possível do aspecto de humanidade. Isto sim é o que a autora afirma ser “converter o próprio eu em um show”, espetacularizar a própria personalidade “recorrendo a métodos comparáveis aos de uma grife pessoal que deve ser bem posicionada no mercado. Pois a imagem de cada um é a sua própria marca, um capital tão valioso que é necessário cuidá-lo e cultivá-lo, a fim de encarnar um personagem atraente no competitivo mercado dos olhares” .
É interessante notar como Sibilia percebe a queda da aura individual, que “teria se apagado com a proliferação de cópias, simulacros e falsificações de subjetividades descartáveis na sociedade do espetáculo, com sua fábrica de personagens alterdirigidas. Daí a ansiedade atual por recompor de algum modo a aura perdida, por se apropriar de qualquer coisa que pareça aparentada com aquela auréola de unicidade tão difícil de conseguir hoje em dia” . Remete um pouco a Freud quando este escreve sua obra de psicanálise coletiva titulada O Mal Estar da Civilização, em que o homem estaria eternamente procurando o elo perdido com a natureza ao mesmo tempo em que estaria invariavelmente se afastando da própria natureza e de suas leis, utilizando-se de artifícios –como os jardins ou vasos de plantas nas janelas de apartamentos –para provar a si mesmo que ainda está conectado com o natural.
Chegando a um ponto em que Sibilia cita mais uma vez Benjamin, explicitando o quanto a experiência está em vias de extinção na sociedade, de fato não apenas a experiência –individual e coletiva- quanto, e por conseqüência lógica, a memória. Na mordernidade já não mais narramos as nossas viagens, apenas mostramos as fotos. Não guardamos informações as mais necessárias para o caminhar da vida, acessamos ao google. Não gravamos os telefones dos entes familiares a quem mais ligamos, apenas acionamos um comando de voz no celular ou apertamos um botão em que está o nome da pessoa a quem nos interessa ligar. Até para um indivíduo falar sobre si mesmo, ele diz “acesse o meu blog, tudo da minha vida está lá”. E assim os seres humanos seguem até que venham a esquecer quem realmente são.
Rousseau: O Contrato Social
Tentarei ser breve e claro para explicar o que é o contrato social. Imaginemos o homem nos seus primeiros tempos, em que ele era livre. Como dito antes, catástrofes naturais os uniriam e eles se organizariam em famílias, que mais tarde daria origem à sociedade. Entre os homens livres existe o conceito do “eu”, a individualidade, mas o ser humano abre mão do “eu” pelo “meu” quando passa a viver em sociedade, pois esta surge com a propriedade privada. Neste estado o homem já não tem total liberdade e para cada um defender o “seu” surge o Contrato Social, em que a vontade individual dá lugar à vontade universal, a força lugar ao poder e a sociedade ao estado de guerra, pois a vontade de ampliar o “meu” faz com que homens ambiciosos entrem em conflito entre si por mais propriedade. Este contrato social mais tarde é regido por leis, que a princípio é a vontade de todos nas mão de todos e em que os que criam as leis devem estar igualmente a elas submetidas.
Para Rousseau existem quatro tipos de leis no seio social: políticas, para reger os homens; civil, para regular a liberdade entre os homens, deixando-os livres entre si mas dependentes do Estado; leis criminais, para aqueles que desobedecem as leis e as normas culturais, a mais importante de todas elas. O Estado, por sua vez, seria formado pelo soberano, que executaria as leis; o governo, que ficaria entre o soberano e os vassalos garantindo os direitos e impedindo abusos através das leis; e logo viriam os vassalos, ou o povo.
O Contrato Social lembra em muitos aspectos a obra O Príncipe de Maquiavel, mas exalta à república. Durante a obra trata-se de todas as formas de governo teorizadas por Aristóteles, acrescentando dados a mais. Diz que a democracia só seria possível em um povo de deuses, pois é muito perfeita para os homens, e, como dito, ressalta a república como único sistema virtuoso para os homens.
Rousseau acreditava que os grandes Estados tinham pouco ou nada de solução, mas chegou a elaborar constituições para pequenos Estados, como a Polônia. A política era um de seus temas favoritos.
Para Rousseau existem quatro tipos de leis no seio social: políticas, para reger os homens; civil, para regular a liberdade entre os homens, deixando-os livres entre si mas dependentes do Estado; leis criminais, para aqueles que desobedecem as leis e as normas culturais, a mais importante de todas elas. O Estado, por sua vez, seria formado pelo soberano, que executaria as leis; o governo, que ficaria entre o soberano e os vassalos garantindo os direitos e impedindo abusos através das leis; e logo viriam os vassalos, ou o povo.
O Contrato Social lembra em muitos aspectos a obra O Príncipe de Maquiavel, mas exalta à república. Durante a obra trata-se de todas as formas de governo teorizadas por Aristóteles, acrescentando dados a mais. Diz que a democracia só seria possível em um povo de deuses, pois é muito perfeita para os homens, e, como dito, ressalta a república como único sistema virtuoso para os homens.
Rousseau acreditava que os grandes Estados tinham pouco ou nada de solução, mas chegou a elaborar constituições para pequenos Estados, como a Polônia. A política era um de seus temas favoritos.
Rousseau: a Origem da Desigualdade Entre os Homens
Este foi um tema bem discutido ao longo da disciplina, assim darei algumas pinceladas. Quando apresentei o trabalho sobre o Discurso sobre as Origens e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens, pensei que seria fácil expor em sala de aula as idéias de Rousseau, afinal, a desigualdade não é algo difícil de explicar, ainda mais lendo um autor tão apaixonante. Porém foi como explicar a simples frase “penso logo existo” de Descartes. Óbvia de início, mas de difícil explanação.
Rousseau trabalha o homem de natureza e fundamenta a origem da desigualdade com o advento da propriedade privada. A partir do momento que passa a viver em sociedade, desvincula-se da natureza e passa a perverter-se. Essa perversão é a busca de sua virtude original que nunca mais encontrará e a qual sempre procurará substituir, indo sempre ao caminho da desgraça. Jean-Jacques trata a linguagem e o trabalho como a queda do mundo perfeito e a ascensão para a alienação. A propriedade privada e por conseguinte a sociedade é que marcam o estado de guerra. Nessa construção do homem social, as catástrofes naturais é que teriam unido o homem e este organizado-se familiarmente, aos poucos deixando a natureza para constituir uma comunidade aos moldes familiar. Assim surgiria o trabalho como cooperação comunitária e junto a língua como advento da consciência da alteridade entre os próprios homens (MATOS, O., p12). Essas duas propriedades alteram a maneira de ser dos homens e tiram o homem do “amor por si” lavando-o ao “amor-próprio”. Logo viriam a questão do “meu” e assim a propriedade, o trabalho alienado, a submissão. Passou-se da força para o poder. O homem separado da natureza aliena-se por que passa a depender de produtos esternos produzidos por ele para sobreviver, acreditando que depende deles e não do trabalho que os produz. O ser humano caiu do paraíso para o qual nunca mais voltará. Caiu em desgraça e para a desgraça continuará. Um pouco negativo, ele, não?
Rousseau trabalha o homem de natureza e fundamenta a origem da desigualdade com o advento da propriedade privada. A partir do momento que passa a viver em sociedade, desvincula-se da natureza e passa a perverter-se. Essa perversão é a busca de sua virtude original que nunca mais encontrará e a qual sempre procurará substituir, indo sempre ao caminho da desgraça. Jean-Jacques trata a linguagem e o trabalho como a queda do mundo perfeito e a ascensão para a alienação. A propriedade privada e por conseguinte a sociedade é que marcam o estado de guerra. Nessa construção do homem social, as catástrofes naturais é que teriam unido o homem e este organizado-se familiarmente, aos poucos deixando a natureza para constituir uma comunidade aos moldes familiar. Assim surgiria o trabalho como cooperação comunitária e junto a língua como advento da consciência da alteridade entre os próprios homens (MATOS, O., p12). Essas duas propriedades alteram a maneira de ser dos homens e tiram o homem do “amor por si” lavando-o ao “amor-próprio”. Logo viriam a questão do “meu” e assim a propriedade, o trabalho alienado, a submissão. Passou-se da força para o poder. O homem separado da natureza aliena-se por que passa a depender de produtos esternos produzidos por ele para sobreviver, acreditando que depende deles e não do trabalho que os produz. O ser humano caiu do paraíso para o qual nunca mais voltará. Caiu em desgraça e para a desgraça continuará. Um pouco negativo, ele, não?
Rousseau: Sobre as Ciências e as Artes
Só quem leu o Discurso Sobre as Ciências e as Artes sabe a coragem do autor em enviar para o concurso da Academia de Ciências de Dijon, para o concurso sobre o tema “Contribuiu o restabelecimento das ciências e das artes para o aperfeiçoamento dos costumes?”. Ilude-se quem imagina encontrar sequer um elogio às ciências ou às Artes, pois ambas são massacradas pelo autor como responsáveis pela inércia e ignorância humanas. Aliás, é uma verdadeira apologia da ignorância. “A arte amolece o espírito e corrompe a sociedade. Mais vale conquistar o mundo do que ser um mundo de arte”, diz Rousseau (p. 213-14). Ressalta que as grandes civilizações caíram quando passaram a dedicar-se às artes e ciências (Egito, Grécia, Roma); crítica a filosofia, dizendo que ouvindo os filósofos os tomaríamos por um bando de charlatães (p.228). Fala mal nitidamente do próprio iluminismo: “Deus todo poderoso! Tu que tens nas mãos os espíritos, livra-nos das luzes e das artes funestas de nossos pais, e dai-nos a ignorância, a inocência e a pobreza” (p. 229). Desacredita os mestres dizendo que os grandes gênios destes não precisaram, e que o ensinamento de um iria apenas limitar um bom pensador (p. 229). Por fim, por esses trechos é possível visualizar como confrontou aqueles que o deram o primeiro prêmio e exorta a virtude como única arte e ciência que o homem deve seguir.
segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
Resenha do texto “O livro didático no contexto de transição dos paradigmas da história”
O texto de Caimi é interessante e começa por demonstrar que a produção dos livros didáticos de história não ocorre de maneira paralela à produção acadêmica e antes tem com esta uma sintonia, bem como compartilha da evolução do mercado editorial e da historiografia social. Antes seria, então, o livro didático de história “o elo de ligação entre a produção acadêmica e o professor de história”, o que causa uma “inovação teórica e metodológica” .
Podemos entender, então, o livro didático como uma opção política e teórica do autor da obra, o que estará presente na obra. Da mesma forma que o historiador, o autor é um “selecionador”. O historiador seleciona entre “incontáveis manifestações humanas”, enquanto que o autor de livros didáticos julga o que é “digno” de se passado através do ensino. Claro que este autor é, como todos os homens e mulheres, fruto de sua época.
Na polêmica dos campos paradigmáticos que o autor deve seguir, existem cinco eixos centrais, que Caimi coloca na seguinte seqüência: concepção de história, concepção de ensino, periodização, “objetos, fontes e bibliografia” e sujeito histórico. Em seguida, Flávia Eloísa vai se debruçar por explicar um a um destes termos, dividindo os produtores e autores de livros didáticos em grupos, dentro da concepção histórica, como sendo quatro principais, ou seja, história como estudo do passado, história como transformação social, história como, a história do cotidiano e a história como experiência humana.
Dentro da concepção de ensino, Caimi também divide em alguns grupos. Por exemplo, um primeiro movimento majoritário “apresenta uma proposta pedagógica que não oferece espaço para a multiplicidade de leitura historiográfica, para o confronto ou divergência de opiniões” . Tem ainda uma segunda corrente que “propõe uma metodologia dinâmica e crítica, oferecendo mais de uma visão sobre determinado tema” . Claro que ao longo de todo o texto, Flávia Eloísa se coloca ao lado de um aluno atuante, ou seja, posiciona-se diante da segunda corrente proposta.
Quanto à periodização, Caimi acredita ser esta uma das mais complexas tarefas que se impõe ao historiador, o que aponta para três possibilidades principais: o da cronologia linear, de acordo com os modos de produção e o ensino por eixos temáticos. Mais uma vez o texto tende a apoiar a última proposta oferecida.
Para a autora o os livros didáticos ainda estão muito tímidos na abordagens dos objetos, deixando temas sociais ainda ausentes do livro. Novos enfoques (negros, homossexuais, mulheres, analfabetos, pobres, crianças, etc.) devem ser abordados com seriedade sócio-histórica, e a fonte bibliográfica deve ser coerente com o que o autor se propõe. Também devem explorar fontes pouco exploradas na produção didática, como revistas, jornais e outras que estejam próximas ao próprio aluno, ampliando as “possibilidades de leitura histórica ” através destas novas fontes.
Quanto ao autor ao tratar do sujeito histórico, o que se apresenta como maior questão a ser modificada é que geralmente quem produz o livro didático “faz a crítica ao vencedor e omite a história do vencido, destrói alguns mitos e não recupera a experiência das minorias excluídas da história”.
A obra é conclusiva a muito clara quanto às tendências dos autores e se apresenta como um texto de importância a historiadores e professores de história que queiram se dedicar à produção de livros didáticos.
Podemos entender, então, o livro didático como uma opção política e teórica do autor da obra, o que estará presente na obra. Da mesma forma que o historiador, o autor é um “selecionador”. O historiador seleciona entre “incontáveis manifestações humanas”, enquanto que o autor de livros didáticos julga o que é “digno” de se passado através do ensino. Claro que este autor é, como todos os homens e mulheres, fruto de sua época.
Na polêmica dos campos paradigmáticos que o autor deve seguir, existem cinco eixos centrais, que Caimi coloca na seguinte seqüência: concepção de história, concepção de ensino, periodização, “objetos, fontes e bibliografia” e sujeito histórico. Em seguida, Flávia Eloísa vai se debruçar por explicar um a um destes termos, dividindo os produtores e autores de livros didáticos em grupos, dentro da concepção histórica, como sendo quatro principais, ou seja, história como estudo do passado, história como transformação social, história como, a história do cotidiano e a história como experiência humana.
Dentro da concepção de ensino, Caimi também divide em alguns grupos. Por exemplo, um primeiro movimento majoritário “apresenta uma proposta pedagógica que não oferece espaço para a multiplicidade de leitura historiográfica, para o confronto ou divergência de opiniões” . Tem ainda uma segunda corrente que “propõe uma metodologia dinâmica e crítica, oferecendo mais de uma visão sobre determinado tema” . Claro que ao longo de todo o texto, Flávia Eloísa se coloca ao lado de um aluno atuante, ou seja, posiciona-se diante da segunda corrente proposta.
Quanto à periodização, Caimi acredita ser esta uma das mais complexas tarefas que se impõe ao historiador, o que aponta para três possibilidades principais: o da cronologia linear, de acordo com os modos de produção e o ensino por eixos temáticos. Mais uma vez o texto tende a apoiar a última proposta oferecida.
Para a autora o os livros didáticos ainda estão muito tímidos na abordagens dos objetos, deixando temas sociais ainda ausentes do livro. Novos enfoques (negros, homossexuais, mulheres, analfabetos, pobres, crianças, etc.) devem ser abordados com seriedade sócio-histórica, e a fonte bibliográfica deve ser coerente com o que o autor se propõe. Também devem explorar fontes pouco exploradas na produção didática, como revistas, jornais e outras que estejam próximas ao próprio aluno, ampliando as “possibilidades de leitura histórica ” através destas novas fontes.
Quanto ao autor ao tratar do sujeito histórico, o que se apresenta como maior questão a ser modificada é que geralmente quem produz o livro didático “faz a crítica ao vencedor e omite a história do vencido, destrói alguns mitos e não recupera a experiência das minorias excluídas da história”.
A obra é conclusiva a muito clara quanto às tendências dos autores e se apresenta como um texto de importância a historiadores e professores de história que queiram se dedicar à produção de livros didáticos.
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
Quem vê o quê?
REIA-BATISTA, VITOR, Quem vê o quê? TV no âmbito da literacia dos media, Comunicar; 2008, Vol. 16 Issue 31, p427-429, 3p
Resumo:
O texto de Vitor Reia-Batista trata sobre o papel da intelectualidade portuguesa e de seus conflitos e confrontos com as mídias de comunicação, em especial a televisão, para que melhorem os conteúdos abordados por este veículo midiático junto aos jovens. Segundo Reia-Batista, nos últimos anos tem-se desenvolvido algum debate público em torno dos diferentes papéis da televisão junto de alguns dos setores mais jovens da população, seja enquanto meio prioritário de entretenimento, seja enquanto meio privilegiado de informação, seja ainda enquanto possível meio de aprendizagens, ou mesmo enquanto simples (ou bastante complexa) «baby sitter» [termo do autor que colocarei como babá ao longo da atividade]. Este debate, que a seu tempo foi de certo modo promissor pelo fato de se ir estabelecer no panorama televisivo uma nova entidade reguladora, acabou por se esvair e não contribuir grandemente para qualquer conhecimento mais aprofundado do problema. O autor defende ainda que as potencialidades que a comunicação e a televisão possuem para abordar os seus temas de maneira alienante e vazia diante dos jovens, podem ser desenvolvidas de maneiras distinta e em prol de uma nova sociedade e de um novo adolescente. Porém, vale ressaltar que esse debate dá-se de maneira acadêmica em direto confronto com o veículo televisivo.
***
Antes de mais nada, vamos ao tema do meu trabalho. Procuro analisar os Festivais Internacionais da Canção da Globo (FICs) entre 1968 e 1972. Um caminho que inicialmente tomarei será trilhado pela Escola de Framkfurt, utilizando-se do conceito de Indústria Cultural, de Theodor Adorno e Max Horkheimer; a idéia de recepção de Walter Banjamin; e da televisão como veículo híbrido (Canclini e Burke); atualizados por Debord em sua obra A Sociedade do Espetáculo.
Desta maneira, o artigo de Vitor Reia-batista vem ao encontro desta pesquisa já que considera que a televisão proporciona uma experiência coletiva e cria laços sociais entre diversas comunidades e setores populacionais de diferentes características sociais, étnicas e etárias, é necessário, segundo Reia-Batista, que a televisão crie narrativas que possam ser consideradas úteis e que possam agregar valores na vida quotidiana dos telespectadores.
Ao se considerar o potencial cognitivo e estético do meio televisivo, o autor demonstra que as narrativas televisivas predominantes podem ser úteis em diferentes sentidos, como por exemplo, para entreter e desviar a atenção da realidade, tanto junto dos mais jovens como dos mais velhos, mas, de igual modo, também podem alertar para questões políticas, sociais e éticas de forma relativamente eficaz, como tem acontecido em alguns exemplos de grande projeção midiática e de impacto social. Além disso, podem estimular o processo de auto-conhecimento dos indivíduos e as suas relações sociais, nomeadamente junto dos mais jovens e do seu forte sentido grupal, originando debates de idéias e diferenças de opiniões, inicialmente adquiridas no campo do cognitivismo midiático e, aliás, intuídas pela generalidade das entidades reguladoras e outras entidades supervisoras das mídia ou de decisão política, embora o sejam, geralmente, apenas pela suas implicações mais negativas.
Portanto, o que o artigo traz de novo conceito sobre o tema diz respeito a que “o momento é apropriado para pensarmos em boas formas de alargar o campo ao desenvolvimento de alguma das características intrínsecas à natureza da televisão para criar, contar e compartilhar narrativas que sejam ‘úteis’ e que contribuam não somente para a democratização da sociedade, mas também para uma mudança de foco da completa banalização temática que assolou a comunicação social”.
Resumo:
O texto de Vitor Reia-Batista trata sobre o papel da intelectualidade portuguesa e de seus conflitos e confrontos com as mídias de comunicação, em especial a televisão, para que melhorem os conteúdos abordados por este veículo midiático junto aos jovens. Segundo Reia-Batista, nos últimos anos tem-se desenvolvido algum debate público em torno dos diferentes papéis da televisão junto de alguns dos setores mais jovens da população, seja enquanto meio prioritário de entretenimento, seja enquanto meio privilegiado de informação, seja ainda enquanto possível meio de aprendizagens, ou mesmo enquanto simples (ou bastante complexa) «baby sitter» [termo do autor que colocarei como babá ao longo da atividade]. Este debate, que a seu tempo foi de certo modo promissor pelo fato de se ir estabelecer no panorama televisivo uma nova entidade reguladora, acabou por se esvair e não contribuir grandemente para qualquer conhecimento mais aprofundado do problema. O autor defende ainda que as potencialidades que a comunicação e a televisão possuem para abordar os seus temas de maneira alienante e vazia diante dos jovens, podem ser desenvolvidas de maneiras distinta e em prol de uma nova sociedade e de um novo adolescente. Porém, vale ressaltar que esse debate dá-se de maneira acadêmica em direto confronto com o veículo televisivo.
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Antes de mais nada, vamos ao tema do meu trabalho. Procuro analisar os Festivais Internacionais da Canção da Globo (FICs) entre 1968 e 1972. Um caminho que inicialmente tomarei será trilhado pela Escola de Framkfurt, utilizando-se do conceito de Indústria Cultural, de Theodor Adorno e Max Horkheimer; a idéia de recepção de Walter Banjamin; e da televisão como veículo híbrido (Canclini e Burke); atualizados por Debord em sua obra A Sociedade do Espetáculo.
Desta maneira, o artigo de Vitor Reia-batista vem ao encontro desta pesquisa já que considera que a televisão proporciona uma experiência coletiva e cria laços sociais entre diversas comunidades e setores populacionais de diferentes características sociais, étnicas e etárias, é necessário, segundo Reia-Batista, que a televisão crie narrativas que possam ser consideradas úteis e que possam agregar valores na vida quotidiana dos telespectadores.
Ao se considerar o potencial cognitivo e estético do meio televisivo, o autor demonstra que as narrativas televisivas predominantes podem ser úteis em diferentes sentidos, como por exemplo, para entreter e desviar a atenção da realidade, tanto junto dos mais jovens como dos mais velhos, mas, de igual modo, também podem alertar para questões políticas, sociais e éticas de forma relativamente eficaz, como tem acontecido em alguns exemplos de grande projeção midiática e de impacto social. Além disso, podem estimular o processo de auto-conhecimento dos indivíduos e as suas relações sociais, nomeadamente junto dos mais jovens e do seu forte sentido grupal, originando debates de idéias e diferenças de opiniões, inicialmente adquiridas no campo do cognitivismo midiático e, aliás, intuídas pela generalidade das entidades reguladoras e outras entidades supervisoras das mídia ou de decisão política, embora o sejam, geralmente, apenas pela suas implicações mais negativas.
Portanto, o que o artigo traz de novo conceito sobre o tema diz respeito a que “o momento é apropriado para pensarmos em boas formas de alargar o campo ao desenvolvimento de alguma das características intrínsecas à natureza da televisão para criar, contar e compartilhar narrativas que sejam ‘úteis’ e que contribuam não somente para a democratização da sociedade, mas também para uma mudança de foco da completa banalização temática que assolou a comunicação social”.
domingo, 14 de junho de 2009
O Filme "O Homem da Capa Preta"
Seguem alguns trechos do livro Dialética do Esclarecimento, de Theodor Adorno e Max Horkheimer, capítulo Indústria Cultural: o esclarecimento como mitificação das massas:
O filme começa em Alagoas, com o nascimento de Natalício Tenório Cavalcanti de Albuquerque em 1909. Uma poesia de cordel fica ao fundo, enquanto a mãe de Natalício fecha o corpo de seu filho com dizeres que remetem à cultura e à tradição do sertão nordestino.
Natalício, já crescido, presencia a morte de seu pai, Antônio Tenório. O mesmo assassino de seu pai volta anos depois para matá-lo, mas Natalício se aproveita enquanto a arma do jagunço falha e mata o algoz de seu pai à inchadadas.
O enredo salta para a metade da década de 1940, quando Getúlio abre eleições diretas, e mostra Tenório Cavalcanti como um deputado estadual eleito em Duque de caxias, no Rio de Janeiro. Em seu discurso de posse enfatiza: “o povo agora tem um advogado e um defensor”, empunhando a constituição na mão esquerda e sua metralhadora Lurdinha na mão direita, usando uma capa preta que demonstra ao povo que eles agora têm um denfensor.
Tenório se mostra como um típico político populista, que com uma mão acaricia o povo e com a outra manipula. Escutando os problemas do povo, pouco resolve, geralmente transferindo para outros, inclusive para Deus. Andando entre o povo de Duque de Caxias e perguntado por pessoas que bebiam na rua para que time torcia Tenório, este respondeu: “sou Flamengo de coração, Fluminense por convicção, mas eu torço mesmo é para o Bota-Fogo”.
Alcançando uma popularidade cada vez maior, Tenório Cavalcanti também passa a acumular cada vez mais inimigos, principalmente entre os políticos do PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), representado no filme pelo deputado Afonso Arinos, inimigo pessoal de Natalício, que chega à câmara Federal pela UDN (União Democrática Nacional).
E o PTB consegue eleger o prefeito, o governador e o presidente, podendo assim agir contra Tenório em Duque de Caxias. É o que acontece. O delegado Lima Maragato vai para a cidade e passa a perseguir sem clemência os aliados de Tenório. Em um evento em que o delegado manda que Tenório tire o chapéu na sua presença e o deputado não acata, Maragato derruba o chapéu de Natalício, que se abaixa para peg-alo e é fotografado de joelhos diante do delegado, abalando sua carreira política.
A partir de então Tenório não usa mais a capa preta e a cidade entra em estado de guerra civil, com morte de vários lados, inclusive a do delegado Maragato.
Sem uma preocupação em mostrar os anos se passando, o filme passeis pelos governos de Getúlio Vargas, de 1951 a 1954; de Juscelino e de Jânio Quadros quase que imperceptivelmente, não fosse pelas expresões dos atores que eram envelhecidos. A instabilidade política do país é contada pelo discurso de Tenório, que sai da UDN para tentar o governo da Guanabara contra Carlos Lacerda e perde. Após a derrota fica sozinho e sem o apoio de seus antigos e fiéis aliados, um camponês e um jornalista, que discordavam da atuação inflexível de Natalício.
Derrotado nas urnas e sem apoio, o homem da capa preta revê suas atuações políticas e resolve mudar, refazendo as alianças perdidas porém com um novo discurso, que agora se aproximava de João Goulart, portanto visto como de esquerda para a época. O jornal Luta Democrática é a voz destas novas idéias, consumido pelas classes mais populares do Estado.
Mas o golpe militar representa também um duro golpe para o renascimento político de Tenório. Seus aliados foram perseguidos e em breve chegaria a vez dele. O jornalista fugiu pela embaixada da Suíça enquanto o operário resolveu ficar e resistir, provavelmente em guerrilhas.
Tenório também ficou. Estava novamente com a Lurdinha em uma mão e a capa preta sobre o corpo ajudando ao povo contra as injustiças dos poderosos. “não sou facista nem comunista. Sou Tenório Cavalcanti. Sou macho”. O político populista estava acima das ideologias.
Na visão do diretor Sérgio Rezende, Tenório é o herói. Um populista saído do povo e que busca governar para o povo. A constituição em uma mão e a metralhadora em outra estão de acordo com a própria representação da deusa grega da justiça que, de olhos vendados, traz em uma mão uma balança e na outra uma espada.
Natalício não entra em crises pessoais, que ficam representadas no papel de sua esposa, que tem breves surtos de loucuras.
Para Sérgio Rezende, o populismo é odiado pelos poderosos e aliado do povo. Tenório acaba do lado de Jango e seus inimigos são conchavados com o exército que tomou o poder. Desta maneira, o golpe militar é também um golpe no governo popular, democrático. Quando a cada de Natalício é cercada pelo exército, entenda-se como a casa de um representante do povo sendo invadida sem mandato, sem leis.
Na última sequência do filme, os militares entram novamente na casa de Tenório em busca de pessoas perseguidas pelo regime que supostamente estariam escondidas ali, no lar do político. Os soldados são liderados pelo arquirival Afonso Arinos, que se dirige a Natalício de diz que vai destruir seu nome e sobre ele jogar sal e pedras, ou seja, a punição dada a Tiradentes, um herói da liberdade. Essa é a visão que tenta passar Sérgio Rezende nesta sua leitura sobre o populismo, aproximando-a dos dias atuais, já que o filme é de 1986 e dialoga menos com o início do regime que com o seu final.
Todo o filme trabalha cores. No início do filme em que Tenório está sempre de preto, seus inimigos estão sempre de branco. Após deixar de usar a capa preta, Tenório é que passa a usar o branco e seus inimigos usam o preto. As câmeras geralmente utilizam-se de planos médios e closes quando Tenório fala, aproximando em planos-detalhes de sua boca ou expressões do rosto quando este discursa raivosamente. Quando seus opositores estão reunidos, raramente suas caras são mostradas, com planos nas mãos, nas roupas ou mesmo colocando objetos na frente do rosto, destacando a figura de Afonso Arinos.
O filme ganhou os prêmio de melhor filme, melhor atriz (Marieta Severo), melhor ator (José Wilker) e melhor música(D. Tygell) no festival de gramado de 1986.
Temas e conteúdos históricos abordados:
O principal conteúdo histórico que percorre todo o filme são os 19 anos que durou o populismo. Segundo a leitura que o diretor Sérgio Rezende fez, os populistas são apresentados pela figura de Natalício Tenório Cavalcanti de Albuquerque e estão ao lado do povo. No caso de Tenório, emergiram do próprio povo. Tanto que nos momentos em que o deputado Tenório se afasta do povo, sofre grandes derrotas e fica isolado politicamente. Populistas históricos tradicionais como Getúlio Vargas e mais superficialmente Jânio Quadros, são vistos sutilmente como inimigos.
O período temporal do filme percorre os 19 anos de populismo começados historiograficamente em 1945, com o fim do Estado Novo de Getúlio Vargas e a eleição de Eurico Gaspar Dutra, até a Revolução Gloriosa de 1964, conhecida menos gloriosamente como golpe militar, cujo primeiro presidente foi Humberto de Alencar Castelo Branco.
Passam-se por estes diferentes anos, diferentes presidentes. Dutra (1945-1951), Getúlio Vargas novamente (1951-1954), o presidente João Fernandes Café Filho (1954-1955) que sucedeu Vargas após o suicídio, Juscelino Kubitschek (1956-1961), Jânio Quadros (de favereiro a setembro de 1961), João Goulart (1961-1964) e Castelo Branco (!964-1967). O filme consegue passar a instabilidade do populismo que em menos de 20 anos teve seis presidentes dos quais apenas dois cumpriram todo o mandato, que foram Dutra e JK.
Os idealizadores do filme não deixaram de considerar o fato de estarem produzindo a película em 1986, logo após o fim do regime. Assim, dialogam diretamente com os anseios de um público que quer vilanizar os militares e exaltar os últimos democratas antes do golpe. Em função disto Tenório era um democrata populista que se aliou a João Goulart. Ambos foram perseguidos assim que os militares tomaram o poder. Eles foram os últimos democratas e estavam ao lado das massas. Os inimigos de Tenório, por outro lado, acabaram todos ao lado da ditadura, perseguindo o povo.
Tenório é como o povo: fala o que pensa. Seus inimigos atuam sempre escondidos, confabulando em reuniões em que suas caras não aparecem. Assim é Afonso Arinos, com atitudes indiretas de nomear cargos para perseguir seus opositores. Essa é a linha que Rezende se utiliza para contar os fatos do populismo como pré-cessor do regime militar em diálogo com o momento de pós-ditadura.
O filme começa em Alagoas, com o nascimento de Natalício Tenório Cavalcanti de Albuquerque em 1909. Uma poesia de cordel fica ao fundo, enquanto a mãe de Natalício fecha o corpo de seu filho com dizeres que remetem à cultura e à tradição do sertão nordestino.
Natalício, já crescido, presencia a morte de seu pai, Antônio Tenório. O mesmo assassino de seu pai volta anos depois para matá-lo, mas Natalício se aproveita enquanto a arma do jagunço falha e mata o algoz de seu pai à inchadadas.
O enredo salta para a metade da década de 1940, quando Getúlio abre eleições diretas, e mostra Tenório Cavalcanti como um deputado estadual eleito em Duque de caxias, no Rio de Janeiro. Em seu discurso de posse enfatiza: “o povo agora tem um advogado e um defensor”, empunhando a constituição na mão esquerda e sua metralhadora Lurdinha na mão direita, usando uma capa preta que demonstra ao povo que eles agora têm um denfensor.
Tenório se mostra como um típico político populista, que com uma mão acaricia o povo e com a outra manipula. Escutando os problemas do povo, pouco resolve, geralmente transferindo para outros, inclusive para Deus. Andando entre o povo de Duque de Caxias e perguntado por pessoas que bebiam na rua para que time torcia Tenório, este respondeu: “sou Flamengo de coração, Fluminense por convicção, mas eu torço mesmo é para o Bota-Fogo”.
Alcançando uma popularidade cada vez maior, Tenório Cavalcanti também passa a acumular cada vez mais inimigos, principalmente entre os políticos do PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), representado no filme pelo deputado Afonso Arinos, inimigo pessoal de Natalício, que chega à câmara Federal pela UDN (União Democrática Nacional).
E o PTB consegue eleger o prefeito, o governador e o presidente, podendo assim agir contra Tenório em Duque de Caxias. É o que acontece. O delegado Lima Maragato vai para a cidade e passa a perseguir sem clemência os aliados de Tenório. Em um evento em que o delegado manda que Tenório tire o chapéu na sua presença e o deputado não acata, Maragato derruba o chapéu de Natalício, que se abaixa para peg-alo e é fotografado de joelhos diante do delegado, abalando sua carreira política.
A partir de então Tenório não usa mais a capa preta e a cidade entra em estado de guerra civil, com morte de vários lados, inclusive a do delegado Maragato.
Sem uma preocupação em mostrar os anos se passando, o filme passeis pelos governos de Getúlio Vargas, de 1951 a 1954; de Juscelino e de Jânio Quadros quase que imperceptivelmente, não fosse pelas expresões dos atores que eram envelhecidos. A instabilidade política do país é contada pelo discurso de Tenório, que sai da UDN para tentar o governo da Guanabara contra Carlos Lacerda e perde. Após a derrota fica sozinho e sem o apoio de seus antigos e fiéis aliados, um camponês e um jornalista, que discordavam da atuação inflexível de Natalício.
Derrotado nas urnas e sem apoio, o homem da capa preta revê suas atuações políticas e resolve mudar, refazendo as alianças perdidas porém com um novo discurso, que agora se aproximava de João Goulart, portanto visto como de esquerda para a época. O jornal Luta Democrática é a voz destas novas idéias, consumido pelas classes mais populares do Estado.
Mas o golpe militar representa também um duro golpe para o renascimento político de Tenório. Seus aliados foram perseguidos e em breve chegaria a vez dele. O jornalista fugiu pela embaixada da Suíça enquanto o operário resolveu ficar e resistir, provavelmente em guerrilhas.
Tenório também ficou. Estava novamente com a Lurdinha em uma mão e a capa preta sobre o corpo ajudando ao povo contra as injustiças dos poderosos. “não sou facista nem comunista. Sou Tenório Cavalcanti. Sou macho”. O político populista estava acima das ideologias.
Na visão do diretor Sérgio Rezende, Tenório é o herói. Um populista saído do povo e que busca governar para o povo. A constituição em uma mão e a metralhadora em outra estão de acordo com a própria representação da deusa grega da justiça que, de olhos vendados, traz em uma mão uma balança e na outra uma espada.
Natalício não entra em crises pessoais, que ficam representadas no papel de sua esposa, que tem breves surtos de loucuras.
Para Sérgio Rezende, o populismo é odiado pelos poderosos e aliado do povo. Tenório acaba do lado de Jango e seus inimigos são conchavados com o exército que tomou o poder. Desta maneira, o golpe militar é também um golpe no governo popular, democrático. Quando a cada de Natalício é cercada pelo exército, entenda-se como a casa de um representante do povo sendo invadida sem mandato, sem leis.
Na última sequência do filme, os militares entram novamente na casa de Tenório em busca de pessoas perseguidas pelo regime que supostamente estariam escondidas ali, no lar do político. Os soldados são liderados pelo arquirival Afonso Arinos, que se dirige a Natalício de diz que vai destruir seu nome e sobre ele jogar sal e pedras, ou seja, a punição dada a Tiradentes, um herói da liberdade. Essa é a visão que tenta passar Sérgio Rezende nesta sua leitura sobre o populismo, aproximando-a dos dias atuais, já que o filme é de 1986 e dialoga menos com o início do regime que com o seu final.
Todo o filme trabalha cores. No início do filme em que Tenório está sempre de preto, seus inimigos estão sempre de branco. Após deixar de usar a capa preta, Tenório é que passa a usar o branco e seus inimigos usam o preto. As câmeras geralmente utilizam-se de planos médios e closes quando Tenório fala, aproximando em planos-detalhes de sua boca ou expressões do rosto quando este discursa raivosamente. Quando seus opositores estão reunidos, raramente suas caras são mostradas, com planos nas mãos, nas roupas ou mesmo colocando objetos na frente do rosto, destacando a figura de Afonso Arinos.
O filme ganhou os prêmio de melhor filme, melhor atriz (Marieta Severo), melhor ator (José Wilker) e melhor música(D. Tygell) no festival de gramado de 1986.
Temas e conteúdos históricos abordados:
O principal conteúdo histórico que percorre todo o filme são os 19 anos que durou o populismo. Segundo a leitura que o diretor Sérgio Rezende fez, os populistas são apresentados pela figura de Natalício Tenório Cavalcanti de Albuquerque e estão ao lado do povo. No caso de Tenório, emergiram do próprio povo. Tanto que nos momentos em que o deputado Tenório se afasta do povo, sofre grandes derrotas e fica isolado politicamente. Populistas históricos tradicionais como Getúlio Vargas e mais superficialmente Jânio Quadros, são vistos sutilmente como inimigos.
O período temporal do filme percorre os 19 anos de populismo começados historiograficamente em 1945, com o fim do Estado Novo de Getúlio Vargas e a eleição de Eurico Gaspar Dutra, até a Revolução Gloriosa de 1964, conhecida menos gloriosamente como golpe militar, cujo primeiro presidente foi Humberto de Alencar Castelo Branco.
Passam-se por estes diferentes anos, diferentes presidentes. Dutra (1945-1951), Getúlio Vargas novamente (1951-1954), o presidente João Fernandes Café Filho (1954-1955) que sucedeu Vargas após o suicídio, Juscelino Kubitschek (1956-1961), Jânio Quadros (de favereiro a setembro de 1961), João Goulart (1961-1964) e Castelo Branco (!964-1967). O filme consegue passar a instabilidade do populismo que em menos de 20 anos teve seis presidentes dos quais apenas dois cumpriram todo o mandato, que foram Dutra e JK.
Os idealizadores do filme não deixaram de considerar o fato de estarem produzindo a película em 1986, logo após o fim do regime. Assim, dialogam diretamente com os anseios de um público que quer vilanizar os militares e exaltar os últimos democratas antes do golpe. Em função disto Tenório era um democrata populista que se aliou a João Goulart. Ambos foram perseguidos assim que os militares tomaram o poder. Eles foram os últimos democratas e estavam ao lado das massas. Os inimigos de Tenório, por outro lado, acabaram todos ao lado da ditadura, perseguindo o povo.
Tenório é como o povo: fala o que pensa. Seus inimigos atuam sempre escondidos, confabulando em reuniões em que suas caras não aparecem. Assim é Afonso Arinos, com atitudes indiretas de nomear cargos para perseguir seus opositores. Essa é a linha que Rezende se utiliza para contar os fatos do populismo como pré-cessor do regime militar em diálogo com o momento de pós-ditadura.
Resenha de Apple e Beane sobre Escolas Democráticas
Um ensino democrático é sintetizado por M. Apple e J. Beane. Eles juntaram as teorias de Dewey, principalmente, e de outros autores do ensino democrático dando um corpo que torna mais visual e palpável as propostas dentro do título “Escolas Democráticas”.
Antes de tudo os próprios autores tentam definir o que é democracia, o que com estrema dificuldade não chegam a uma conclusão objetiva mas encontram conceitos que servem para ilustrar o que seria o modo ideal do pensar democrático.
Outros estão comprometidos com a idéia de que o modo de vida democrático é construído sobre as oportunidades de descobrir o que é esse modo de vida e como ele deveria ser conduzido. Acreditam que as escolas, como experiência comum de praticamente todos os jovens, tem a obrigação moral de lhes apresentar o modo de vida democrático. Sabem também que esse modo de vida se aprende pela experiência. Não é um status a ser alcançado só depois que as outras coisas são assimiladas. Além disso, acreditam que a democracia se estende a todas as pessoas, inclusive aos jovens. Por fim, acreditam que a democracia não é incômoda nem perigosa, que pode dar certo nas sociedades e nas escolas. (p. 18)
De fato, os autores acreditam que a sociedade ainda não encontrou o verdadeiro sentido da democracia, atribuindo-a ao governo exercido, ao voto e, por vezes, utilizada como argumento para conseguir o que se quer: “isso (não) é democracia”. Neste sentido seria um conceito flexível. Enquanto pessoas desacreditam, outros a justificam como argumento para tudo. Mas segundo Apple e Beane, quem teve a boa e verdadeira democracia, não abriria mão dela, deixando-a de legado para seus filhos e netos.
Porém se o conceito de democracia não fica tão objetivo, os educadores sabem muito bem o que querem das escolas democráticas. A começar pelos pontos enumerados que representam as principais preocupações centrais dessas escolas. Seriam estes o livre fluxo das idéias; capacidade individual e coletiva de as pessoas criarem condições de resolver problemas; o uso da reflexão e análise crítica para avaliar idéias. Preocupaçãi para o bem-estar de outros e com o bem comum; preocupação com a dignidade e os direitos do indivíduo e das minorias; a compreensão de que a democracia é um conjunto de valores “idealizados” que regulam a nossa vida. (p. 17) Então o texto “Escolas Democráticas” estabelece as pretensões que uma escola assim deve almeijar:
As escolas democráticas pretendem ser espaçoe democráticos, de modo que a idéia de democracia também se estenda aos muitos papéis que os adultos desempenham nas escolas. Isso significa que os educadores profissionais, assim como os pais, os ativistas comunitários e outros cidadãos têm o direito de estar bem informado e de Ter uma participação crítica na criação das políticas e programas escolares para si e para os jovens.
Essas escolas são resultados de tentativas de dar vida à democracia em sala de aula através de duas linhas de trabalho: “uma é criar estruturas e processos de democráticos por meio dos quais a vida escolar se realize. A outra é criar um currículo que ofereça experiências democráticas”. Isto quer dizer que todos aqueles diretamente envolvidos com a escola, dentro e fora dela, tem o direito de participar das tomadas de decisões e em sala de aula, professores e alunos envolvendo-se nos planejamentos disáticos, chegando a consensos que agradam ambas as partes. Com isto, visaria, não só o crescimento de cidadania do estudante, como também findar a competição em classe (p. 20-22).
Ora, dentro das escolas aqui descritas, é impossível que uma mudança haja sem que seja trabalhado de maneira especial o currículo, isto é, democratizar a formação e criação curricular. Com que objetivo? Ampliar suas idéias e expressar as que já tiveram.
Lógico que seria fundamental que o meio social em que o estudante vivesse fosse todo igualmente democrático, ou seja, em que os jovens são leitores críticos da sociedade. Porém tal leitura caberá à escola oferecer, expandindo-se da escola para fora enquanto não se torna uma pista de mão dupla. Agindo em cooperação com o currículo da escola, os alunos abandonarã o papel passivo de “consumidores do saber”, e passarão a ser “elaboradores de significados” (p. 30).
O currículo deve também ser aberto à comunidade, pois trabalhará questões da vida coletiva ao redor do aluno. Assim trataria dos conflitos, o futuro e a justiça na comunidade em que vive o alunos, por exemplo.
Numa sociedade democrática, nenhum indiv;iduo ou grupo de interesse pode reinvidicar a propriedade exclusiva do saber e dos significados possíveis. Da mesma forma, um currículo democrático inclui não apenas o que os adultos julgam importante, mas também as questões e os interesses dos jovens em relação a si mesmos e a seu mundo.
Mas a implantação deste sistema enfrenta diversas barreiras. Entre eles, Apple e Beane citam a exaustão e os conflitos devido às escolas serem instituições historicamente antidemocráticas, principalmente com as miorias. Mas os principais problemas se encontram quando se deparam com os que se beneficiam das desigualdades ou com os que se interessam no poder hierárquico. Todavia, como enfatizam os autores, uma experiência democrática se constrói mais por meio de esforços repetidos que fazema diferença (p. 24-25).
Para a implementação de um currículo democrático, muitas escolas evitam o assunto sabendo que estão restringindo o conhecimento transmitido, o cnhecimento oficial, produzido pela classe (cultura) dominante; também, nos moldes velhos de currículo, silencia-se as vozes da cultura oprimida, o que está claro nos livros didáticos. Ora, as condições vigentes são antidemocrática, cabendo aos professores romperem com isto, em eterna tensão, ao mesmo tempo em que transmitem conhecimentos dos grupos educaionais no poder.
Por fim o desinteresse em jovens mais preparados criticamente está, dentro das escolas, acompanhado do medo da análise aguçada que podem levar os estudantes a questionarem o conhecimento escolar e dominante, levando-os a questionar problemas sociais ainda maiores. E a participação no currículo também ameaçam revelar as contradições éticas e políticas, fazendo com que o aluno questine valores que a escola diz defender ou afastando os discentes deles (p. 32).
Como visto, Apple e Beane são muito mais críticos e perfuram muito mais as questões que permeiam a educação do que Dewey, ainda que este seja a grande referência teórica dos dois primeiros. Embora a opinião do texto Escolas Democráticas seja de que não se trata de algo tão difícil de ser posto em prática, no fundo eles são mais pessimistas, ou como diria Umberto Eco, “apocalipticos”. Mas isso é uma outra história para um outro por-do-sol.
Antes de tudo os próprios autores tentam definir o que é democracia, o que com estrema dificuldade não chegam a uma conclusão objetiva mas encontram conceitos que servem para ilustrar o que seria o modo ideal do pensar democrático.
Outros estão comprometidos com a idéia de que o modo de vida democrático é construído sobre as oportunidades de descobrir o que é esse modo de vida e como ele deveria ser conduzido. Acreditam que as escolas, como experiência comum de praticamente todos os jovens, tem a obrigação moral de lhes apresentar o modo de vida democrático. Sabem também que esse modo de vida se aprende pela experiência. Não é um status a ser alcançado só depois que as outras coisas são assimiladas. Além disso, acreditam que a democracia se estende a todas as pessoas, inclusive aos jovens. Por fim, acreditam que a democracia não é incômoda nem perigosa, que pode dar certo nas sociedades e nas escolas. (p. 18)
De fato, os autores acreditam que a sociedade ainda não encontrou o verdadeiro sentido da democracia, atribuindo-a ao governo exercido, ao voto e, por vezes, utilizada como argumento para conseguir o que se quer: “isso (não) é democracia”. Neste sentido seria um conceito flexível. Enquanto pessoas desacreditam, outros a justificam como argumento para tudo. Mas segundo Apple e Beane, quem teve a boa e verdadeira democracia, não abriria mão dela, deixando-a de legado para seus filhos e netos.
Porém se o conceito de democracia não fica tão objetivo, os educadores sabem muito bem o que querem das escolas democráticas. A começar pelos pontos enumerados que representam as principais preocupações centrais dessas escolas. Seriam estes o livre fluxo das idéias; capacidade individual e coletiva de as pessoas criarem condições de resolver problemas; o uso da reflexão e análise crítica para avaliar idéias. Preocupaçãi para o bem-estar de outros e com o bem comum; preocupação com a dignidade e os direitos do indivíduo e das minorias; a compreensão de que a democracia é um conjunto de valores “idealizados” que regulam a nossa vida. (p. 17) Então o texto “Escolas Democráticas” estabelece as pretensões que uma escola assim deve almeijar:
As escolas democráticas pretendem ser espaçoe democráticos, de modo que a idéia de democracia também se estenda aos muitos papéis que os adultos desempenham nas escolas. Isso significa que os educadores profissionais, assim como os pais, os ativistas comunitários e outros cidadãos têm o direito de estar bem informado e de Ter uma participação crítica na criação das políticas e programas escolares para si e para os jovens.
Essas escolas são resultados de tentativas de dar vida à democracia em sala de aula através de duas linhas de trabalho: “uma é criar estruturas e processos de democráticos por meio dos quais a vida escolar se realize. A outra é criar um currículo que ofereça experiências democráticas”. Isto quer dizer que todos aqueles diretamente envolvidos com a escola, dentro e fora dela, tem o direito de participar das tomadas de decisões e em sala de aula, professores e alunos envolvendo-se nos planejamentos disáticos, chegando a consensos que agradam ambas as partes. Com isto, visaria, não só o crescimento de cidadania do estudante, como também findar a competição em classe (p. 20-22).
Ora, dentro das escolas aqui descritas, é impossível que uma mudança haja sem que seja trabalhado de maneira especial o currículo, isto é, democratizar a formação e criação curricular. Com que objetivo? Ampliar suas idéias e expressar as que já tiveram.
Lógico que seria fundamental que o meio social em que o estudante vivesse fosse todo igualmente democrático, ou seja, em que os jovens são leitores críticos da sociedade. Porém tal leitura caberá à escola oferecer, expandindo-se da escola para fora enquanto não se torna uma pista de mão dupla. Agindo em cooperação com o currículo da escola, os alunos abandonarã o papel passivo de “consumidores do saber”, e passarão a ser “elaboradores de significados” (p. 30).
O currículo deve também ser aberto à comunidade, pois trabalhará questões da vida coletiva ao redor do aluno. Assim trataria dos conflitos, o futuro e a justiça na comunidade em que vive o alunos, por exemplo.
Numa sociedade democrática, nenhum indiv;iduo ou grupo de interesse pode reinvidicar a propriedade exclusiva do saber e dos significados possíveis. Da mesma forma, um currículo democrático inclui não apenas o que os adultos julgam importante, mas também as questões e os interesses dos jovens em relação a si mesmos e a seu mundo.
Mas a implantação deste sistema enfrenta diversas barreiras. Entre eles, Apple e Beane citam a exaustão e os conflitos devido às escolas serem instituições historicamente antidemocráticas, principalmente com as miorias. Mas os principais problemas se encontram quando se deparam com os que se beneficiam das desigualdades ou com os que se interessam no poder hierárquico. Todavia, como enfatizam os autores, uma experiência democrática se constrói mais por meio de esforços repetidos que fazema diferença (p. 24-25).
Para a implementação de um currículo democrático, muitas escolas evitam o assunto sabendo que estão restringindo o conhecimento transmitido, o cnhecimento oficial, produzido pela classe (cultura) dominante; também, nos moldes velhos de currículo, silencia-se as vozes da cultura oprimida, o que está claro nos livros didáticos. Ora, as condições vigentes são antidemocrática, cabendo aos professores romperem com isto, em eterna tensão, ao mesmo tempo em que transmitem conhecimentos dos grupos educaionais no poder.
Por fim o desinteresse em jovens mais preparados criticamente está, dentro das escolas, acompanhado do medo da análise aguçada que podem levar os estudantes a questionarem o conhecimento escolar e dominante, levando-os a questionar problemas sociais ainda maiores. E a participação no currículo também ameaçam revelar as contradições éticas e políticas, fazendo com que o aluno questine valores que a escola diz defender ou afastando os discentes deles (p. 32).
Como visto, Apple e Beane são muito mais críticos e perfuram muito mais as questões que permeiam a educação do que Dewey, ainda que este seja a grande referência teórica dos dois primeiros. Embora a opinião do texto Escolas Democráticas seja de que não se trata de algo tão difícil de ser posto em prática, no fundo eles são mais pessimistas, ou como diria Umberto Eco, “apocalipticos”. Mas isso é uma outra história para um outro por-do-sol.
1961: que as armas não falem
FELIPE ARAÚJO DE CARVALHO
1961: que as armas não falem
MARKUM, P.; HAMILTON, D. 1961: que as armas não falem. São Paulo: SENAC, 2001
As obras históricas escritas por jornalistas costumam ser criticadas por sua falta de fundamentos e pesquisas mais aprofundadas. Ainda que se questione, é reconhecido a importância de um registro que o historiador ou o sociólogo deixam de fazer por seus métodos específicos.
No caso do trabalho de Markum e Hamilton, o fato de um livro tão grande tratar basicamente de treze dias é reflexo de uma grande pesquisa, e ainda que possam ser expostas as críticas, reproduzem um momento da história do Brasil de suma importância política para o país.
1961, o ano em que o Jânio Quadros assumiu o cargo maior da política nacional: a presidência da república. Também foi o ano em que, sete meses depois, veio a renunciar. As especulações são muitas. A versão mais contada é de que o presidente esperava, a exemplo do que ocorreu com Getúlio Vargas, que o povo fosse às ruas pedir que voltasse ao cargo para assim assumir com poderes plenos e mais consistentes. Uma fita cassete é o principal documento. Mas uma renúncia em si não é fato tão decisivo para levar um país a uma tempestade, afinal, o primeiro presidente brasileiro, Deodoro da Fonseca, já havia sido também o primeiro a renunciar, levando o nosso país ao primeiro ditador ainda não oficialmente: Floriano Peixoto. Pois bem, a renúncia de Quadros desencadeou também uma futura ditadura, mas vamos por partes.
Quando Jânio renunciou, o seu vice presidente encontrava-se na China. Qual o alarde? Os anos sessenta foram os mais extremos e delicados no que dizia respeito à guerra fria, pois em 1959, menos de dois anos antes do ocorrido no Brasil, a Revolução Cubana demonstrava ter sido bem sucedida na ilha caribenha sobra a liderança de Fidel Castro e Ernesto Guevara. Inclusive, polêmico como era Quadros, resolveu condecorar com a principal premiação que se dá no Brasil, o próprio Che. Esse governo polêmico foi, entre outros fatores, um dos alarmantes para que as antenas do militares ficassem ligadas na política do momento. Voltando ao assunto, João Goulart, ou Jango como era conhecido, estava na China, e o grande agravante de sua estadia é que o país de Mao Tsé era comunista e este era, em toda a América, o temor maior dos políticos no poder brasileiro.
Devido a situação indelicada em que se encontrava o país e à imagem que ficou de Jango, este foi do oriente para um país platino, o Uruguai, e de lá veio ao Brasil pelo Rio Grande do Sul, em que seu parente Leonel Brizola já havia se preparado para uma guerra na qual afirmou que ao menos no Rio Grande Jango governaria. De fato, o velho caudilho tina preparado trincheiras na fronteira gaúcha com o resto do país.
Os militares então permitiram a ascensão de Goulart ao poder mas sob o regime parlamentarista, ou seja, ele não governaria. Posteriormente foi feito um plebiscito em que esta forma de governo foi derrotada em prol do presidencialismo e Jango passou a governar de fato... mas seu primeiro grande plano de governo foi barrado, não pelo congresso, mas pela ditadura de 64.
Em todo caso, os autores Markun e Hamilton centram-se apenas no ano de 61. Em especial nos 13 dias governados por Ranieri Mazzili, Presidente da Câmara dos Deputados durante a conturbação. Os autores narram os fatos como uma colagem nem sempre ordenada adequadamente, mas centram e comentam os protagonistas do período. Declaração são complementadas por documentos e, além de Jânio e Jango, personalidades como o governador da Guanabara Carlos Lacerda; Marechal Lott, militar a favor de Jango; o governador de Goiás Mauro Borges; além de Guevara, Brizola, Mazzili e outros são citados.
O ano foi ainda mais comentado pela preparação bélico-militar que o exército nacional fez, pronto para uma guerra, que terminou ficando para dias depois. Alguns prenunciavam uma guerra civil. Os meios de comunicação, a exemplo do que ocorrera menos de 20 anos antes, na ditadura Vargas, foram duramente censurados, principalmente as rádios, tendo sido colocados censores nos jornais impressos. Era uma censura explícita, que mostraria sua cara verdadeira nos primeiros anos de Castelo Branco.
1961: que as armas não falem. Uma boa obra para se entender o ano decisivo para os 24 anos posteriores. Entretanto deixa um gostinho de “quero mais” por ser superficial nas conseqüências deste ano tempestuoso. Também falta mais base nos antecedentes históricos, mas cumpre um importante papel na (e para) história do Brasil.
1961: que as armas não falem
MARKUM, P.; HAMILTON, D. 1961: que as armas não falem. São Paulo: SENAC, 2001
As obras históricas escritas por jornalistas costumam ser criticadas por sua falta de fundamentos e pesquisas mais aprofundadas. Ainda que se questione, é reconhecido a importância de um registro que o historiador ou o sociólogo deixam de fazer por seus métodos específicos.
No caso do trabalho de Markum e Hamilton, o fato de um livro tão grande tratar basicamente de treze dias é reflexo de uma grande pesquisa, e ainda que possam ser expostas as críticas, reproduzem um momento da história do Brasil de suma importância política para o país.
1961, o ano em que o Jânio Quadros assumiu o cargo maior da política nacional: a presidência da república. Também foi o ano em que, sete meses depois, veio a renunciar. As especulações são muitas. A versão mais contada é de que o presidente esperava, a exemplo do que ocorreu com Getúlio Vargas, que o povo fosse às ruas pedir que voltasse ao cargo para assim assumir com poderes plenos e mais consistentes. Uma fita cassete é o principal documento. Mas uma renúncia em si não é fato tão decisivo para levar um país a uma tempestade, afinal, o primeiro presidente brasileiro, Deodoro da Fonseca, já havia sido também o primeiro a renunciar, levando o nosso país ao primeiro ditador ainda não oficialmente: Floriano Peixoto. Pois bem, a renúncia de Quadros desencadeou também uma futura ditadura, mas vamos por partes.
Quando Jânio renunciou, o seu vice presidente encontrava-se na China. Qual o alarde? Os anos sessenta foram os mais extremos e delicados no que dizia respeito à guerra fria, pois em 1959, menos de dois anos antes do ocorrido no Brasil, a Revolução Cubana demonstrava ter sido bem sucedida na ilha caribenha sobra a liderança de Fidel Castro e Ernesto Guevara. Inclusive, polêmico como era Quadros, resolveu condecorar com a principal premiação que se dá no Brasil, o próprio Che. Esse governo polêmico foi, entre outros fatores, um dos alarmantes para que as antenas do militares ficassem ligadas na política do momento. Voltando ao assunto, João Goulart, ou Jango como era conhecido, estava na China, e o grande agravante de sua estadia é que o país de Mao Tsé era comunista e este era, em toda a América, o temor maior dos políticos no poder brasileiro.
Devido a situação indelicada em que se encontrava o país e à imagem que ficou de Jango, este foi do oriente para um país platino, o Uruguai, e de lá veio ao Brasil pelo Rio Grande do Sul, em que seu parente Leonel Brizola já havia se preparado para uma guerra na qual afirmou que ao menos no Rio Grande Jango governaria. De fato, o velho caudilho tina preparado trincheiras na fronteira gaúcha com o resto do país.
Os militares então permitiram a ascensão de Goulart ao poder mas sob o regime parlamentarista, ou seja, ele não governaria. Posteriormente foi feito um plebiscito em que esta forma de governo foi derrotada em prol do presidencialismo e Jango passou a governar de fato... mas seu primeiro grande plano de governo foi barrado, não pelo congresso, mas pela ditadura de 64.
Em todo caso, os autores Markun e Hamilton centram-se apenas no ano de 61. Em especial nos 13 dias governados por Ranieri Mazzili, Presidente da Câmara dos Deputados durante a conturbação. Os autores narram os fatos como uma colagem nem sempre ordenada adequadamente, mas centram e comentam os protagonistas do período. Declaração são complementadas por documentos e, além de Jânio e Jango, personalidades como o governador da Guanabara Carlos Lacerda; Marechal Lott, militar a favor de Jango; o governador de Goiás Mauro Borges; além de Guevara, Brizola, Mazzili e outros são citados.
O ano foi ainda mais comentado pela preparação bélico-militar que o exército nacional fez, pronto para uma guerra, que terminou ficando para dias depois. Alguns prenunciavam uma guerra civil. Os meios de comunicação, a exemplo do que ocorrera menos de 20 anos antes, na ditadura Vargas, foram duramente censurados, principalmente as rádios, tendo sido colocados censores nos jornais impressos. Era uma censura explícita, que mostraria sua cara verdadeira nos primeiros anos de Castelo Branco.
1961: que as armas não falem. Uma boa obra para se entender o ano decisivo para os 24 anos posteriores. Entretanto deixa um gostinho de “quero mais” por ser superficial nas conseqüências deste ano tempestuoso. Também falta mais base nos antecedentes históricos, mas cumpre um importante papel na (e para) história do Brasil.
Uma breve biografia de Rousseau
JEAN-JACQUES ROUSSEAU
Em Genebra, a 28 de junho de 1712, nascia Jean-Jacques, filho do relojoeiro e mestre de dança Isaac Rousseau e de Suzane Bernard, que morreria oito dias após o parto. Sua tia paterna ficou com o menino enquanto o pai viajava para Constantinopla a trabalho. Rousseau aprendeu a ler com a tia, que lhe enviou ao Pastor Lambercier, em Bossey. Após dois anos Rousseau foi expulsou do local, acusado de roubo. Indo à casa do cura de Confignon, este notou em Rousseau conflitos intensos. Enviou-o com uma carta à Senhora de Warrens, residente em Annecy, convertida ao catolicismo. Jean-Jacques tinha 16 anos e se impressionara com a mulher. O objetivo do cura era ganhar mais um converso, mas a Senhora de Warrens enviou o rapaz para Turin. Em 1728 Rousseau converte-se ao catolicismo. Termina por virar secretário da Senhora de Vercellis. Com a morte da patroa acusam-no de furto e o expulsam sem escutar explicações. Vai parar em um seminário em que fica quatro meses e logo depois passa a dedicar-se a música.
Rousseau vai à Paris em 1741 para apresentar a Academia de Ciência seu trabalho musical. No hotel que residia conheceu Thárèse Le Vasseur com quem se envolveu, dificultando seu sustento. Através da música fez-se amigo de Voltaire. No ano de 1749 a Academia de Dijon instituiu um concurso temático de textos no qual Jean-Jacques ganhou com seu Discurso sobre as Ciências e as Artes. Estava lançado o pensador, o que não o salvou de suas dificuldades econômicas. Em 1753 participou de outro concurso da mesma academia com a obra Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os homens. Neste ano volta ao protestantismo, pois sua cidade o tinha em conta a não ser por se tratar de um suíço católico. Mas com a publicação do Discurso, Genebra o repudia, e o próprio Voltaire, vivendo na Suíça, condena-o em tons sarcásticos. Rousseau abandona Genebra e publica Lettre sur la Providence, endereçado a Voltaire e outros títulos.
Em 1762 o Contrato Social é editado em Amsterdã. No mês seguinte Emile é lançado em Amsterdã e em Paris simultaneamente. O livro é condenado a fogueira e o autor à prisão. Este refugia-se no interior da Suíça, mas ali chega a mesma sentença, levando Rousseau a refugiar-se em território Prússio. Porém Voltaire publica um panfleto que impossibilita a permanência do suíço neste território e Rousseau vaga por Estrasburgo, Londres, Normandia, Bourgoin (onde casa-se com Thérèse).
Rousseau morreu no castelo de um admirador seu, o Marquês de Girardin, no dia 2 de julho de 1778. Ninguém mais do que ele foi cultuado pelos revolucionários de 1789.
Em Genebra, a 28 de junho de 1712, nascia Jean-Jacques, filho do relojoeiro e mestre de dança Isaac Rousseau e de Suzane Bernard, que morreria oito dias após o parto. Sua tia paterna ficou com o menino enquanto o pai viajava para Constantinopla a trabalho. Rousseau aprendeu a ler com a tia, que lhe enviou ao Pastor Lambercier, em Bossey. Após dois anos Rousseau foi expulsou do local, acusado de roubo. Indo à casa do cura de Confignon, este notou em Rousseau conflitos intensos. Enviou-o com uma carta à Senhora de Warrens, residente em Annecy, convertida ao catolicismo. Jean-Jacques tinha 16 anos e se impressionara com a mulher. O objetivo do cura era ganhar mais um converso, mas a Senhora de Warrens enviou o rapaz para Turin. Em 1728 Rousseau converte-se ao catolicismo. Termina por virar secretário da Senhora de Vercellis. Com a morte da patroa acusam-no de furto e o expulsam sem escutar explicações. Vai parar em um seminário em que fica quatro meses e logo depois passa a dedicar-se a música.
Rousseau vai à Paris em 1741 para apresentar a Academia de Ciência seu trabalho musical. No hotel que residia conheceu Thárèse Le Vasseur com quem se envolveu, dificultando seu sustento. Através da música fez-se amigo de Voltaire. No ano de 1749 a Academia de Dijon instituiu um concurso temático de textos no qual Jean-Jacques ganhou com seu Discurso sobre as Ciências e as Artes. Estava lançado o pensador, o que não o salvou de suas dificuldades econômicas. Em 1753 participou de outro concurso da mesma academia com a obra Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os homens. Neste ano volta ao protestantismo, pois sua cidade o tinha em conta a não ser por se tratar de um suíço católico. Mas com a publicação do Discurso, Genebra o repudia, e o próprio Voltaire, vivendo na Suíça, condena-o em tons sarcásticos. Rousseau abandona Genebra e publica Lettre sur la Providence, endereçado a Voltaire e outros títulos.
Em 1762 o Contrato Social é editado em Amsterdã. No mês seguinte Emile é lançado em Amsterdã e em Paris simultaneamente. O livro é condenado a fogueira e o autor à prisão. Este refugia-se no interior da Suíça, mas ali chega a mesma sentença, levando Rousseau a refugiar-se em território Prússio. Porém Voltaire publica um panfleto que impossibilita a permanência do suíço neste território e Rousseau vaga por Estrasburgo, Londres, Normandia, Bourgoin (onde casa-se com Thérèse).
Rousseau morreu no castelo de um admirador seu, o Marquês de Girardin, no dia 2 de julho de 1778. Ninguém mais do que ele foi cultuado pelos revolucionários de 1789.
Rousseau III: O contrato social
Tentarei ser breve e claro para explicar o que é o contrato social. Imaginemos o homem nos seus primeiros tempos, em que ele era livre. Como dito antes, catástrofes naturais os uniriam e eles se organizariam em famílias, que mais tarde daria origem à sociedade. Entre os homens livres existe o conceito do “eu”, a individualidade, mas o ser humano abre mão do “eu” pelo “meu” quando passa a viver em sociedade, pois esta surge com a propriedade privada. Neste estado o homem já não tem total liberdade e para cada um defender o “seu” surge o Contrato Social, em que a vontade individual dá lugar à vontade universal, a força lugar ao poder e a sociedade ao estado de guerra, pois a vontade de ampliar o “meu” faz com que homens ambiciosos entrem em conflito entre si por mais propriedade. Este contrato social mais tarde é regido por leis, que a princípio é a vontade de todos nas mão de todos e em que os que criam as leis devem estar igualmente a elas submetidas.
Para Rousseau existem quatro tipos de leis no seio social: políticas, para reger os homens; civil, para regular a liberdade entre os homens, deixando-os livres entre si mas dependentes do Estado; leis criminais, para aqueles que desobedecem as leis e as normas culturais, a mais importante de todas elas. O Estado, por sua vez, seria formado pelo soberano, que executaria as leis; o governo, que ficaria entre o soberano e os vassalos garantindo os direitos e impedindo abusos através das leis; e logo viriam os vassalos, ou o povo.
O Contrato Social lembra em muitos aspectos a obra O Príncipe de Maquiavel, mas exalta à república. Durante a obra trata-se de todas as formas de governo teorizadas por Aristóteles, acrescentando dados a mais. Diz que a democracia só seria possível em um povo de deuses, pois é muito perfeita para os homens, e, como dito, ressalta a república como único sistema virtuoso para os homens.
Rousseau acreditava que os grandes Estados tinham pouco ou nada de solução, mas chegou a elaborar constituições para pequenos Estados, como a Polônia. A política era um de seus temas favoritos.
Para Rousseau existem quatro tipos de leis no seio social: políticas, para reger os homens; civil, para regular a liberdade entre os homens, deixando-os livres entre si mas dependentes do Estado; leis criminais, para aqueles que desobedecem as leis e as normas culturais, a mais importante de todas elas. O Estado, por sua vez, seria formado pelo soberano, que executaria as leis; o governo, que ficaria entre o soberano e os vassalos garantindo os direitos e impedindo abusos através das leis; e logo viriam os vassalos, ou o povo.
O Contrato Social lembra em muitos aspectos a obra O Príncipe de Maquiavel, mas exalta à república. Durante a obra trata-se de todas as formas de governo teorizadas por Aristóteles, acrescentando dados a mais. Diz que a democracia só seria possível em um povo de deuses, pois é muito perfeita para os homens, e, como dito, ressalta a república como único sistema virtuoso para os homens.
Rousseau acreditava que os grandes Estados tinham pouco ou nada de solução, mas chegou a elaborar constituições para pequenos Estados, como a Polônia. A política era um de seus temas favoritos.
Rousseau II: Sobre a Desigualdade
Este foi um tema bem discutido ao longo da disciplina, assim darei algumas pinceladas. Quando apresentei o trabalho sobre o Discurso sobre as Origens e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens, pensei que seria fácil expor em sala de aula as idéias de Rousseau, afinal, a desigualdade não é algo difícil de explicar, ainda mais lendo um autor tão apaixonante. Porém foi como explicar a simples frase “penso logo existo” de Descartes. Óbvia de início, mas de difícil explanação.
Rousseau trabalha o homem de natureza e fundamenta a origem da desigualdade com o advento da propriedade privada. A partir do momento que passa a viver em sociedade, desvincula-se da natureza e passa a perverter-se. Essa perversão é a busca de sua virtude original que nunca mais encontrará e a qual sempre procurará substituir, indo sempre ao caminho da desgraça. Jean-Jacques trata a linguagem e o trabalho como a queda do mundo perfeito e a ascensão para a alienação. A propriedade privada e por conseguinte a sociedade é que marcam o estado de guerra. Nessa construção do homem social, as catástrofes naturais é que teriam unido o homem e este organizado-se familiarmente, aos poucos deixando a natureza para constituir uma comunidade aos moldes familiar. Assim surgiria o trabalho como cooperação comunitária e junto a língua como advento da consciência da alteridade entre os próprios homens (MATOS, O., p12). Essas duas propriedades alteram a maneira de ser dos homens e tiram o homem do “amor por si” lavando-o ao “amor-próprio”. Logo viriam a questão do “meu” e assim a propriedade, o trabalho alienado, a submissão. Passou-se da força para o poder. O homem separado da natureza aliena-se por que passa a depender de produtos esternos produzidos por ele para sobreviver, acreditando que depende deles e não do trabalho que os produz. O ser humano caiu do paraíso para o qual nunca mais voltará. Caiu em desgraça e para a desgraça continuará. Um pouco negativo, ele, não?
Rousseau trabalha o homem de natureza e fundamenta a origem da desigualdade com o advento da propriedade privada. A partir do momento que passa a viver em sociedade, desvincula-se da natureza e passa a perverter-se. Essa perversão é a busca de sua virtude original que nunca mais encontrará e a qual sempre procurará substituir, indo sempre ao caminho da desgraça. Jean-Jacques trata a linguagem e o trabalho como a queda do mundo perfeito e a ascensão para a alienação. A propriedade privada e por conseguinte a sociedade é que marcam o estado de guerra. Nessa construção do homem social, as catástrofes naturais é que teriam unido o homem e este organizado-se familiarmente, aos poucos deixando a natureza para constituir uma comunidade aos moldes familiar. Assim surgiria o trabalho como cooperação comunitária e junto a língua como advento da consciência da alteridade entre os próprios homens (MATOS, O., p12). Essas duas propriedades alteram a maneira de ser dos homens e tiram o homem do “amor por si” lavando-o ao “amor-próprio”. Logo viriam a questão do “meu” e assim a propriedade, o trabalho alienado, a submissão. Passou-se da força para o poder. O homem separado da natureza aliena-se por que passa a depender de produtos esternos produzidos por ele para sobreviver, acreditando que depende deles e não do trabalho que os produz. O ser humano caiu do paraíso para o qual nunca mais voltará. Caiu em desgraça e para a desgraça continuará. Um pouco negativo, ele, não?
Rousseau I: Sobre as Ciências e as Artes
Só quem leu o Discurso Sobre as Ciências e as Artes sabe a coragem do autor em enviar para o concurso da Academia de Ciências de Dijon, para o concurso sobre o tema “Contribuiu o restabelecimento das ciências e das artes para o aperfeiçoamento dos costumes?”. Ilude-se quem imagina encontrar sequer um elogio às ciências ou às Artes, pois ambas são massacradas pelo autor como responsáveis pela inércia e ignorância humanas. Aliás, é uma verdadeira apologia da ignorância. “A arte amolece o espírito e corrompe a sociedade. Mais vale conquistar o mundo do que ser um mundo de arte”, diz Rousseau (p. 213-14). Ressalta que as grandes civilizações caíram quando passaram a dedicar-se às artes e ciências (Egito, Grécia, Roma); crítica a filosofia, dizendo que ouvindo os filósofos os tomaríamos por um bando de charlatães (p.228). Fala mal nitidamente do próprio iluminismo: “Deus todo poderoso! Tu que tens nas mãos os espíritos, livra-nos das luzes e das artes funestas de nossos pais, e dai-nos a ignorância, a inocência e a pobreza” (p. 229). Desacredita os mestres dizendo que os grandes gênios destes não precisaram, e que o ensinamento de um iria apenas limitar um bom pensador (p. 229). Por fim, por esses trechos é possível visualizar como confrontou aqueles que o deram o primeiro prêmio e exorta a virtude como única arte e ciência que o homem deve seguir.
O Livro Didático no contexto de transição dos paradigmas da história
Felipe Araújo
Resenha do texto “O livro didático no contexto de transição dos paradigmas da história”
De Flávia Eloísa Caimi
O texto de Caimi é interessante e começa por demonstrar que a produção dos livros didáticos de história não ocorre de maneira paralela à produção acadêmica e antes tem com esta uma sintonia, bem como compartilha da evolução do mercado editorial e da historiografia social. Antes seria, então, o livro didático de história “o elo de ligação entre a produção acadêmica e o professor de história”, o que causa uma “inovação teórica e metodológica” (1).
Podemos entender, então, o livro didático como uma opção política e teórica do autor da obra, o que estará presente na obra. Da mesma forma que o historiador, o autor é um “selecionador”. O historiador seleciona entre “incontáveis manifestações humanas”, enquanto que o autor de livros didáticos julga o que é “digno” de se passado através do ensino. Claro que este autor é, como todos os homens e mulheres, fruto de sua época.
Na polêmica dos campos paradigmáticos que o autor deve seguir, existem cinco eixos centrais, que Caimi coloca na seguinte seqüência: concepção de história, concepção de ensino, periodização, “objetos, fontes e bibliografia” e sujeito histórico. Em seguida, Flávia Eloísa vai se debruçar por explicar um a um destes termos, dividindo os produtores e autores de livros didáticos em grupos, dentro da concepção histórica, como sendo quatro principais, ou seja, história como estudo do passado, história como transformação social, história como, a história do cotidiano e a história como experiência humana.
Dentro da concepção de ensino, Caimi também divide em alguns grupos. Por exemplo, um primeiro movimento majoritário “apresenta uma proposta pedagógica que não oferece espaço para a multiplicidade de leitura historiográfica, para o confronto ou divergência de opiniões” (2). Tem ainda uma segunda corrente que “propõe uma metodologia dinâmica e crítica, oferecendo mais de uma visão sobre determinado tema” (3). Claro que ao longo de todo o texto, Flávia Eloísa se coloca ao lado de um aluno atuante, ou seja, posiciona-se diante da segunda corrente proposta.
Quanto à periodização, Caimi acredita ser esta uma das mais complexas tarefas que se impõe ao historiador, o que aponta para três possibilidades principais: o da cronologia linear, de acordo com os modos de produção e o ensino por eixos temáticos. Mais uma vez o texto tende a apoiar a última proposta oferecida.
Para a autora o os livros didáticos ainda estão muito tímidos na abordagens dos objetos, deixando temas sociais ainda ausentes do livro. Novos enfoques (negros, homossexuais, mulheres, analfabetos, pobres, crianças, etc.) devem ser abordados com seriedade sócio-histórica, e a fonte bibliográfica deve ser coerente com o que o autor se propõe. Também devem explorar fontes pouco exploradas na produção didática, como revistas, jornais e outras que estejam próximas ao próprio aluno, ampliando as “possibilidades de leitura histórica (4)” através destas novas fontes.
Quanto ao autor ao tratar do sujeito histórico, o que se apresenta como maior questão a ser modificada é que geralmente quem produz o livro didático “faz a crítica ao vencedor e omite a história do vencido, destrói alguns mitos e não recupera a experiência das minorias excluídas da história”.
A obra é conclusiva a muito clara quanto às tendências dos autores e se apresenta como um texto de importância a historiadores e professores de história que queiram se dedicar à produção de livros didáticos.
1- P. 76
2- p. 86
3- p. 87
4- p.99
Resenha do texto “O livro didático no contexto de transição dos paradigmas da história”
De Flávia Eloísa Caimi
O texto de Caimi é interessante e começa por demonstrar que a produção dos livros didáticos de história não ocorre de maneira paralela à produção acadêmica e antes tem com esta uma sintonia, bem como compartilha da evolução do mercado editorial e da historiografia social. Antes seria, então, o livro didático de história “o elo de ligação entre a produção acadêmica e o professor de história”, o que causa uma “inovação teórica e metodológica” (1).
Podemos entender, então, o livro didático como uma opção política e teórica do autor da obra, o que estará presente na obra. Da mesma forma que o historiador, o autor é um “selecionador”. O historiador seleciona entre “incontáveis manifestações humanas”, enquanto que o autor de livros didáticos julga o que é “digno” de se passado através do ensino. Claro que este autor é, como todos os homens e mulheres, fruto de sua época.
Na polêmica dos campos paradigmáticos que o autor deve seguir, existem cinco eixos centrais, que Caimi coloca na seguinte seqüência: concepção de história, concepção de ensino, periodização, “objetos, fontes e bibliografia” e sujeito histórico. Em seguida, Flávia Eloísa vai se debruçar por explicar um a um destes termos, dividindo os produtores e autores de livros didáticos em grupos, dentro da concepção histórica, como sendo quatro principais, ou seja, história como estudo do passado, história como transformação social, história como, a história do cotidiano e a história como experiência humana.
Dentro da concepção de ensino, Caimi também divide em alguns grupos. Por exemplo, um primeiro movimento majoritário “apresenta uma proposta pedagógica que não oferece espaço para a multiplicidade de leitura historiográfica, para o confronto ou divergência de opiniões” (2). Tem ainda uma segunda corrente que “propõe uma metodologia dinâmica e crítica, oferecendo mais de uma visão sobre determinado tema” (3). Claro que ao longo de todo o texto, Flávia Eloísa se coloca ao lado de um aluno atuante, ou seja, posiciona-se diante da segunda corrente proposta.
Quanto à periodização, Caimi acredita ser esta uma das mais complexas tarefas que se impõe ao historiador, o que aponta para três possibilidades principais: o da cronologia linear, de acordo com os modos de produção e o ensino por eixos temáticos. Mais uma vez o texto tende a apoiar a última proposta oferecida.
Para a autora o os livros didáticos ainda estão muito tímidos na abordagens dos objetos, deixando temas sociais ainda ausentes do livro. Novos enfoques (negros, homossexuais, mulheres, analfabetos, pobres, crianças, etc.) devem ser abordados com seriedade sócio-histórica, e a fonte bibliográfica deve ser coerente com o que o autor se propõe. Também devem explorar fontes pouco exploradas na produção didática, como revistas, jornais e outras que estejam próximas ao próprio aluno, ampliando as “possibilidades de leitura histórica (4)” através destas novas fontes.
Quanto ao autor ao tratar do sujeito histórico, o que se apresenta como maior questão a ser modificada é que geralmente quem produz o livro didático “faz a crítica ao vencedor e omite a história do vencido, destrói alguns mitos e não recupera a experiência das minorias excluídas da história”.
A obra é conclusiva a muito clara quanto às tendências dos autores e se apresenta como um texto de importância a historiadores e professores de história que queiram se dedicar à produção de livros didáticos.
1- P. 76
2- p. 86
3- p. 87
4- p.99
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